0# CAPA junho 2015

SUPER
INTERESSANTE
Edio 348 junho 2015

[descrio da imagem: uma grande pea, (parece ser em metal) no formato de uma mo humana, fechada, com dedo polegar levantado, em posio de sinal de positivo. Ela est em cima de um homem, onde aparece apenas as pernas e um brao, esmagando-o, com sangue ao redor.
O LADO NEGRO DO FACEBOOK
Ele faz voc de cobaia em experimentos sem avisar, vigia cada movimento seu e nos deixa mais intolerantes e infelizes. E mais: descubra a verdade sobre os likes.

[outros ttulos]

FUGINDO DA ESCOLA
As famlias que decidiram educar seus filhos fora da escola  e da lei.

HOMEM-ARANHA AO CONTRRIO
2.000 CALORIAS
SERENATA DOS RATOS
CAIXAS DE SOM BLUETOOTH
MODO AVIO
COMO ROMPER UM NAMORA
BIXOS

O BRASILEIRO QUE FAZ MSSEIS PARA EXPLODIR NO PAQUISTO
UMA FICO CIENTFICA DE DANIEL GALERA
TERCEIRIZAO E A NOVA ERA DO TRABALHO
O MILAGRE QUE ORIGINOU O CRISTIANISMO FOI UM METEORO?
QUER VIVER NUM PLANETA MELHOR DO QUE A TERRA?

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1# PRIMEIRA PGINA
2# ESSENCIAL
3# SUPERNOVAS
4# REPORTAGENS
5# ORCULO
6# MUNDO SUPER
7# REALIDADE ALTERNATIVA
8# LTIMA PGINA
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1# PRIMEIRA PGINA junho 2015

DA MESA DO EDITOR

PRECISAMOS DE AJUDA

     Nosso trabalho aqui  olhar para o mundo, encontrar gente talentosa com histrias boas e importantes a contar e entregar algo bem editado para voc. Sou um cara de sorte:  uma delcia de trabalho. Mas no  mole no, meu irmo. No  fcil enxergar todas as coisas incrveis acontecendo neste mundo enorme, nem  fcil encontrar as pessoas talentosas, em meio a tanta gente. Por isso, resolvi pedir sua ajuda. Ser que voc ou algum que voc conhece pode nos ajudar a fazer a SUPER? Dou aqui alguns exemplos de coisas que estamos sempre procurando: 

- HQS DE NO-FICCO: Adoramos histrias em quadrinhos jornalsticas ou biogrficas, um gnero que est florescendo no mundo todo, mas que ainda engatinha no Brasil. Ms passado publicamos uma HQ sensacional da Lu Cafaggi abrindo seu corao para contar seus prprios dramas hormonais e, de quebra, dando uma aula de fisiologia humana. Queremos mais! Estamos em busca de gente boa de texto e arte, com grandes histrias de no-fico para contar. 

- CONTOS: A seo Realidade Alternativa traz contos de grandes escritores - este ms  o Daniel Galera. Mas queremos tambm descobrir novos talentos. Buscamos contos inditos de literatura pop, inteligentes mas despretensiosos. O tema  livre, desde que conte a histria de algo que poderia ser, ou poderia ter sido, ou pode vir a ser. Cabe fico cientfica ou histrica, terror, fantasia, drama psicolgico, o que for. A nica obrigao  causar emoo - no importa se na forma de lgrimas, arrepios, gritos ou gargalhadas histricas. 

- INFOGRFICO: Estamos em busca de imagens bonitas e de impacto que sejam tambm muito informativas, sem a necessidade de quase nenhum texto.  para a seo ltima Pgina, que todo ms traz um infogrfico com o mnimo possvel de texto. 

     Quem quiser ajudar precisa mandar para mim um e-mail contendo: 1) o ttulo, o subttulo e uma sinopse de um pargrafo explicando a ideia; 2) no caso da HQ, um quadrinho finalizado como referncia de ilustrao e um sumrio do roteiro; no caso do conto, um sumrio do roteiro e os dois primeiros pargrafos do texto; no caso da ltima Pgina, um rough bem claro, com informao checada. Pagamos pela colaborao, mas o trabalho costuma ser maior que o dinheiro. 
     Aviso desde j que no ser fcil emplacar: recebemos muitas ideias e temos que dizer no  maioria. Mas contamos muito com sua ajuda para melhorar a SUPER cada vez mais. 
Denis Russo Burgierman
DIRETOR DE REDAO
DENIS.BURGIERMAN@ABRIL.COM.BR
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2# ESSENCIAL junho 2015

     2#1 UMA IMAGEM... [foto]
     2#2 ...MIL PALAVRAS  A GENTE NO QUER S LEI TRABALHISTA. A GENTE QUER LIBERDADE PARA TRABALHAR

2#1 UMA IMAGEM...[foto]
O dono desta casa, em Nanning, na China, fez igual o velhinho do UP, aquele filme da Disney: recusou todas as propostas de desapropriao que vieram. E as autoridades locais no foram menos teimosas. Continuarm a construo de uma rua nova, com a casa no meio e tudo. Agora  esperar uma soluo. Nossa dica para o dono (ou para o governo): amarre uns bales na casa.


2#2 ...MIL PALAVRAS  A GENTE NO QUER S LEI TRABALHISTA. A GENTE QUER LIBERDADE PARA TRABALHAR
As relaes de trabalho mudaram. Se continuarmos tratando-as como uma luta de classes entre patres e empregados, os dois lados s tm a perder.
POR PEDRO BURGOS

     NO  DE HOJE. O projeto de lei que regulamenta a terceirizao dos contratos de trabalho no Brasil est circulando pela Cmara h 11 anos. Mas parece que ningum fora de Braslia discutia o assunto a srio at abril, quando, "de repente" ele foi aprovado pelos deputados. A partir da, o debate pegou fogo. Esse projeto de lei, a princpio, permite s empresas contratar terceirizados para realizar suas "atividades-fim". Por exemplo: hoje, a Embraer pode usar faxineiros terceirizados, de outras empresas, sem ter de cuidar dos direitos trabalhistas deles. Mas com os operrios que exercem a atividade-fim da companhia - fabricar avies -  outra histria: precisa contratar diretamente, responsabilizando-se por FGTS, frias, 13... S que agora as coisas podem mudar. Se o projeto de lei virar lei de fato, qualquer empresa vai poder terceirizar  vontade. Ou quase: no momento em que escrevemos, o projeto j foi emendado 240 vezes, caminha sem pressa no Senado e h chances de Dilma vetar. 
     Mas a discusso continua bem acesa. De um lado, alguns defendem que a terceirizao vai criar mais empregos, j que desonera as empresas. De outro, essa lei  o primeiro passo para a extino dos direitos trabalhistas. 
     O maior erro nessa histria talvez seja esse mesmo: polarizar a discusso, reduzindo-a ao maniquesmo de defender a CLT como o bem e qualquer flexibilizaco nas leis trabalhistas como o Lado Negro da Fora. Ou vice-versa. 
     No  uma coisa nem outra. A Consolidao das Leis Trabalhistas (CLT), vale lembrar, foi criada h quase um sculo, em 1934. Era uma poca em que praticamente no havia regra para a relao entre empregador e empregado que no fosse a Lei urea. Quando Getulio Vargas anunciou o texto final da CLT o fez com toda a pompa. Os psteres da poca mostram uma foto enorme dele olhando para os trabalhadores, como um grande protetor. Populismo  parte, fazia todo o sentido, j que a relao entre empresrios e empregados no era exatamente um exemplo de justia social. 
     O debate em torno da terceirizao, agora, passa pela mesma lgica que produziu a CLT: a ideia de que empresrios no so confiveis, e sempre tentaro tirar o mximo do couro do trabalhador, at o limite do permitido em lei. Caberia ao Estado, ento, proteger quem trabalha de quem explora sua mo de obra. 
     Se voc concorda ou no com isso,  uma questo de ponto de vista. Mas no d para negar que os empregados tambm sofrem com as leis de hoje. 

PEGUE O CASO DO FGTS. Todos os empregadores devem aplicar 8% do salrio dos funcionrios com carteira assinada no Fundo de Garantia pelo Tempo de Servio. A obrigao se deveu  desconfiana do governo de que o empregador no reservaria a multa que paga na hora de demisso (um salrio por ano trabalhado). S que, no processo, o Estado tambm tirou o direito do empregado de achar um destino melhor para esse dinheiro, que  dele. Bom  fato  que o FGTS rendeu 30% menos que a inflao do ano 2000 para c. Ou seja: aniquilou um tero do poder de compra dos trabalhadores. No fim das contas,  o governo pegando emprestado de quem trabalha, pagando juros reais negativos. 
     E o problema no  s o FGTS.  tambm a falta de flexibilidade da CLT. Se uma me, ao fim da licena-maternidade, por exemplo, decidir amamentar at mais tarde, no pode fazer um acordo para trabalhar meio perodo ganhando menos, mesmo que queira. Por essas, no falta quem resolva pendurar a carteira de trabalho e tentar a sorte como freelancer. E fica o paradoxo: o excesso de proteo da CLT acaba justamente aumentando a fatia de trabalhadores que no contam com proteo nenhuma. 
     No fundo, precisamos reformar a legislao trabalhista, permitindo outros tipos de contratao mais flexveis, que ampliem a liberdade de escolha tanto das empresas quanto dos empregados. 
     O Uber serve de exemplo. Recentemente ele foi considerado ilegal em algumas cidades brasileiras justamente por no se adequar s leis que regem o trabalho. Para quem no sabe, o Uber  um aplicativo que permite a qualquer motorista oferecer caronas cobrando por elas, como se fosse um txi. Essa intermediao deu to certo que o Uber j vale US$ 40 bilhes (sete Embraeres). 
     Engraado  que o conceito de "atividade-fim", essencial para uma lei da terceirizao, perde sentido nessa nova economia mediada por aplicativos. Os motoristas dos seds pretos que andam nas metrpoles no so "do Uber". Nem recebem pelo Uber - s usam o aplicativo como intermedirio para conseguir, na falta de um termo melhor, microcontratos temporrios com seus clientes. Tem mais. As estrelas de YouTube que vemos em cartazes de publicidade ganham salrios de executivo de multinacional, mas no so funcionrias do Google, o dono do YouTube. Nada disso  regulado. E claro: no  s a nova economia que est desprotegida pela CLT. As diaristas que o digam. 
     Ento, o que acontecer quando esse monte de freelancers, terceirizados, precrios e pessoas que fazem bico em geral precisarem de frias, licena ou ficarem doentes? No h lei trabalhista que d conta. E a entramos em outro ponto da discusso: talvez o Estado no precise assumir tantas responsabilidades por seus cidados para que a sociedade seja justa. 

NO EXISTE SALRIO MNIMO na Dinamarca, por exemplo. O que tem  uma grande liberdade para contratar ou demitir. Tambm no h obrigao de frias remuneradas ou 13. E nem por isso as empresas escravizam seus funcionrios - muito pelo contrrio, j que o padro de vida na Dinamarca  praticamente dinamarqus. Sem piada: os servios pblicos funcionam to bem quanto os privados e o desemprego fica na casa dos 4%, o menor da Europa, onde a mdia est em 10%. L, a lgica no  segurar o emprego do cidado, ou deixar mais difcil mand-lo embora. Mas sim garantir que ele tenha uma vida digna mesmo que o salrio no d conta ou que ele esteja desempregado. 
     Ou seja: a responsabilidade no  s do empresrio, mas de toda a sociedade, que paga alguns dos impostos mais altos do mundo. Ento fica a pergunta: ser que estamos dispostos a mudar quem paga a conta, ou continuaremos tratando o assunto como se ele se resumisse a uma luta de classes entre patres e empregados? Uma dica para a resposta: a dcada de 1930 j terminou.
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3# SUPERNOVAS junho 2015

     3#1 FATOS
     3#2 COISAS

3#1 FATOS
Edio KARIN HUECK

O HOMEM-ARANHA CHEGOU
S QUE AO CONTRRIO. Se na HQ Peter Parker foi picado por uma aranha radioativa e se transformou no heri na vida real, foi a aranha que ganhou superpoderes. Cientistas italianos borrifaram duas misturas aquosas de grafeno e de nanotubos de carbono sobre 15 exemplares de aranhas da famlia Pholcidae. A ideia era ver se os materiais mais resistentes criados pelo homem poderiam se misturar a um dos materiais mais resistentes d natureza, a teia de aranha: Deu certo: algumas aranhas comearam a produzir teias at 3,5 vezes mais fortes. Os pesquisadores acham que elas recolhem materiais do ambiente para formar suas teias.

UMA ARMA CONTRA O REVENGE PORN 
Ter imagens ntimas vazadas por um(a) namorado(a) j  ruim o suficiente, mas, na hora de punir os responsveis, a situao piora. Pelo mundo todo, faltam mecanismos legais para processar quem vaza e quem distribui as imagens online. Por isso, uma americana resolveu inovar. Quando o ex-namorado botou mais de cem fotos suas online, ela decidiu patentear os prprios seios. Assim, se exps ainda mais: mandou suas fotos ntimas para o Escritrio de Direitos Autorais dos EUA e os registrou. S assim ela pode processar - por violao de direitos autorais - quem distribuir as fotos. Apesar de a vtima ter passado por mais constrangimentos, foi uma maneira de punir os criminosos. 
Priscila Bellini 

(AINDA) ESTAMOS SOZINHOS L FORA
Usando dados da Nasa, um grupo de cientistas chegou  concluso de que no h civilizaes avanadas nas 100 mil galxias mais prximas de ns. A concluso foi baseada no princpio do fsico Freeman Dyson, que teorizou que vida hiperinteligente pode ser descoberta por emisses de raios infravermelhos. Pela teoria, civilizaes avanadas teriam computadores, naves espaciais e meios de comunicao - que sempre emitem algum tipo de energia. "O que fazemos  usar cmeras infravermelhas para ver quanto de energia est sendo emitida em galxias inteiras", diz Jason Wright, um dos pesquisadores. Em 50 galxias havia vestgios de radiao, mas todos os casos foram explicados por processos astronmicos naturais. Para esses cientistas, se os aliens esto l, eles se escondem muito bem. Ou so como ns: a prpria Terra no seria detectada por esse mtodo - no emitimos energia suficiente. 
Marcos Ricardo dos Santos

ARTE DO SCULO 22 
Drones pixadores e escultores guerrilheiros: as novas intervenes urbanas so engajadas e high-tech. 
PB 
Pixao - O americano Katsu acoplou um spray a um drone e, em pouco mais de um minuto, rabiscou um dos maiores outdoors de Nova York, um anncio da marca Calvin Klein. 
Transparncia - Esttuas dos ciberativistas Edward Snowden e Julian Assange apareceram misteriosamente em Nova York e Berlim. A ideia  denunciar a perda da nossa privacidade. 

DESPEDIDA
De uma pessoa e de uma espcie.
Yevgeny Afanasyev
Pas: Rssia
Ocupao: Espio?
O professor universitrio foi condenado  cadeia em 2012 por passar informaes confidenciais  China sobre um novo mssil submarino. Mas ativistas diziam que ele apenas participou de um simpsio acadmico na China. Ele morreu na priso de ataque cardaco aos 62 anos. 
Brema-de-espinha-longa
Acanthobrama centisquama 
Esse peixe de gua doce habitava o lago Amik na Turquia. No sculo 20, o lago foi drenado para o plantio de algodo, e hoje a rea  seca e virou um aeroporto. Bilogos tinham esperana de que o peixe ainda vivesse no lago vizinho, mas ele
no foi encontrado.

NO LTIMO MS, O MUNDO PAROU PARA VER O NOVO BEB REAL. ENQUANTO ISSO... 
Por Ana Lusa  
Foi descoberto o primeiro peixe de sangue quente do mundo. O Peixe-Lua  gil at mesmo em guas frias. 
Cientistas descobriram que as marcas de vida mais antigas da Terra (3,46 bilhes de anos) no eram marcas de vida. Eram formaes geolgicas.  que nos anos 1970, quando foram coletadas, no havia microscpios to poderosos. 
Pesquisadores criaram msculos artificiais a partir de clulas de cebola. 
Foi descoberto um novo estado da matria: uma fase metlica chamada Jahn-Teller. Serve para conduzir energia em altas temperaturas. 

Fontes National Oceanic and Atmospheric Administration. Onion artificial muscles, Chien-Chun Chen. Institute for Atmospheric and Climate Science. 

UM METEORO MUDOU O DESTINO DO CRISTIANISMO?
Entrevistamos o astrnomo William Hartmann, que acredita que So Paulo  o maior responsvel pela popularizao da f crist  pode ter se convertido depois de observar a queda de um meteoro. 
MRS

Qual  a sua hiptese? 
Alguns eventos astronmicos recentes mostram que a reao a meteoros  muito semelhante a relatos registrados em documentos antigos. Na Bblia, no Livro dos Apstolos, h trs descries de uma luz brilhante "vinda do cu", que teria ocorrido na dcada de 30 d.C. na Sria. Os detalhes so muito parecidos aos relatos de bolas de fogo resultantes das quedas de meteoritos em Chelyabinsk (em 2013) ou Tunguska (em 1908). Entre as coincidncias mais impressionantes e inesperadas est a descrio de uma cegueira temporria relatada por So Paulo na Bblia que se parece com os sintomas de uma condio fsica hoje conhecida corno fotoqueratite ou cegueira da neve. 

O que deve ter acontecido nesse dia? 
Imagino que Saulo (nome original de Paulo) estava a caminho de Damasco com seus amigos para prender os adeptos da nova religio crist. Quando estavam entre 37 e 64 km de Damasco, testemunharam uma bola de fogo no cu durante o dia, entre duas a dez vezes maior que o Sol. A maioria do grupo fechou os olhos para evitar a intensa claridade (como as pessoas fazem tambm nos episdios recentes). Saulo manteve os olhos abertos e achou que estava recebendo uma mensagem divina, confundindo o barulho do meteoro com a voz de Deus. 

O que explica o milagre bblico de voltar a ver? 
Paulo manteve os olhos abertos e ficou temporariamente cego. Impressionado com um evento to raro (que ocorre uma vez a cada cem anos), ele se converteu ao Cristianismo, passando a usar o nome de Paulo. Dois dias depois, Paulo recuperou a viso. Era um milagre. Ele descreveu que caam escamas de seus olhos, algo que conhecemos hoje como escamao epitelial, um dos sintomas da fotoqueratite.
Fontes: Chelyabinsk, Zond IV, and a possible first-century fireball of historical importance, William Hartmann.

A CIDADE DO FUTURO  UM MINIZOO
Urbanistas acreditam que, para ter cidades mais amigveis e ecolgicas,  bom que comecemos a abrir espaos para os animais. Algumas metrpoles ao redor do mundo j abraaram a ideia. 
Texto Karin Hueck

1- No Cairo, porcos so responsveis pela eliminao de boa parte do lixo orgnico  e os excrementos so depois vendidos para agricultores como adubo. 
2- O aeroporto de Chicago contratou lhamas, ovelhas e burros para aparar a grama entre as pistas de decolagem. E o melhor: eles assustam os pssaros que atrapalham os voos. 
3- Cidades californianas como Santa Monica esto treinando falces para manter pombos longe de vinhedos, campos de golfe e centros empresariais. 

NADA SE DECOMPE EM CHERNOBIL
Quase 30 anos depois do maior acidente nuclear da histria, cientistas descobriram que rvores e folhas que morrem por l ficam intactas sem se decompor. O material orgnico das regies contaminadas tem ndice de decomposio 40% inferior. A hiptese  que as radiaes tenham afetado as populaes de fungos, micrbios e insetos que se alimentam de matria morta. 
FREAK SHOW 
 Pssaros que vivem na regio tm crebros 5% menores que seus parentes de outras partes do pas. 
 O nmero de aranhas aumentou. Para os pesquisadores, a explicao  a reduo dos seus predadores. 

VOC PAGA ESTE POLTICO PARA:
Por Rodolfo Viana
Projetos de lei que foram apresentados no plenrio no ltimo ms. 
 Iraj Abreu, deputado federal pelo PSD-TO, quer tirar a responsabilidade dos partidos no caso de abusos eleitorais. Apenas candidatos seriam multados. 
 Luiz Nishimori, deputado federal do PR-PR, defende isentar de impostos de importao, Cofins e ICMS todos os artigos voltados para a prtica de golfe. 
 Victrio Galli, deputado federal pelo PSC-MT, quer que 18 de junho seja considerado Dia Nacional da Igreja Assembleia de Deus. 

VOC DECIDE
Os projetos mais interessantes (e surpreendentes) do mundo do crowdfunding
Churrasco solar noturno 
Site: Kickstarter 
Projeto: GoSun Grill 
O que : uma churrasqueira solar porttil. Primeiro, voc a deixa tomando sol por duas horas. Um cilindro dentro dela absorve calor - que depois voc pode usar de noite, para cozinhar (por at 2 h). O segredo est no contedo do cilindro: sal, um excelente retentor de calor. 
Meta US$ 140 mil 

Ecstasy medicinal 
Site: Indiegogo 
Projeto: EmmaSofia 2 
O que : dois cientistas, com passagens pelas universidades Harvard e de Washington, querem ajuda para desenvolver remdios  base de MDMA - princpio ativo do ecstasy. Eles afirmam que a substncia pode ser eficaz para tratar depresso, alcoolismo e Parkinson. 
Meta US$ 28.900 

Coleira inteligente 
Site: Indiegogo 
Projeto: DogsSense 
O que : uma coleira eletrnica com GPS, que mostra onde o seu cachorro est e manda um alerta se ele sair de uma rea predefinida. Tambm monitora os batimentos cardacos, a respirao e a temperatura corporal do tot, e manda todas as informaes em tempo real para o seu smartphone. A coleira usa uma bateria, mas ela dura muito: um ano. 
Meta 65 mil euros 


DELICINHAS
65 receitas foram criadas pelo supercomputador Watson, da IBM - que est lanando o prprio livro de culinria. O rob leu e analisou 9 mil receitas, para tentar descobrir o que combina com o qu. 
Cognitiva Cooking With Chef Watson 
US$ 20 na Amazon
Testamos o menu do chef-rob
SALADA DE MILHO COM NECTARINA 
Receita: grelhe o milho e misture com nectarina, queijo branco e manjerico. 
Resultado: bonito e gostoso, principalmente colocando sal. 
BURRITO COM CHOCOLATE 
Receita: tempere a carne com laranja e canela e cozinhe. Derreta o chocolate e misture. 
Resultado: meio estranho... Mas d para comer. 
SIDRA COM PANCETTA 
Receita: deixe a pancetta (tipo de bacon) de um dia para o outro na sidra. Coe e beba. 
Resultado: horroroso (t de brincation uite me, Watson?). 

PECADO  FEIO. MAS TODO MUNDO COMETE OS SEUS
E, SEM ELES, O MUNDO SERIA OUTRO. Foi graas  inveja, por exemplo, que surgiram as primeiras histrias da Bblia, Michelangelo foi escolhido para pintar a Capela Sistina e os Beatles compuseram msicas to geniais - John tinha uma certa inveja do talento natural de Paul. E a luxria? Sem ela, o Brasil no seria miscigenado (nem teria Carnaval), e o prprio conceito de pecado no teria sido inventado. E um monte de coisas bizarras, de papas libertinos a prostitutas estatais, no teria existido. Descubra por que nestes dois livros: os primeiros de uma srie de sete, um sobre cada pecado capital. 
Os Sete Pecados - Luxria 
Os Sete Pecados - Inveja 
R$ 39,90 cada um (R$ 26,99 em ebook). 

O BATMAN DA NOVA GERAO
Ele finalmente est chegando  nova gerao de consoles - num game visualmente lindo, que recria uma Gotham City enorme e envolvente. O Coringa est morto, os inimigos e as armas (incluindo o batmvel) mudaram. Mas a misso  a mesma: manter a ordem a todo custo. 
Batman Arkham Knight 
Lanamento dia 23/6. 
Para PC, PS4 e Xbox One. US$ 60.


3#2 COISAS
EDIO BRUNO GARATTONI

A SALVAO DO WI-FI
Problema com Wi-Fi em casa, todo mundo tem. Sabe aquelas horas em que a rede fica lenta sem motivo, ou aquele canto da sala onde o sinal no alcana? A soluo finalmente est chegando  graas a uma nova tecnologia.
Por Fernando Bad

VOC J DEVE ter visto quantas redes h em volta da sua. Todas usando as mesmas frequncias, disputando o mesmo espao, interferindo umas com as outras. Um caos. Mas o roteador D-Link AC3200 promete botar ordem nele: porque  o primeiro com a tecnologia Beamforming. Ao contrrio dos outros roteadores, no joga o sinal em todas as direes. Detecta em qual parte da casa voc est, e usa suas antenas para formar um feixe de sinal apontado para l. O resultado  internet mais rpida (at 3,2 Gbps, cinco vezes mais que um roteador normal), e com muito menos interferncia. Voc provavelmente no vai comprar, porque  caro (US$ 300). Mas agradecer a ele ano que vem, quando a tecnologia chegar aos modelos baratos. 


UMA CARTEIRA BEM MELHOR (E MENOR)
Ela se chama Wocket, custa US$ 150 e substitui todos os seus cartes (crdito, dbito, fidelidade etc.) por um s, que  eletrnico e guarda os nmeros de todos  de quebra, tambm memoriza as suas senhas de internet. Tudo na maior segurana: as informaes s so liberadas se a carteira reconhecer a sua voz. Tambm tem um compartimento para colocar dinheiro e documentos,  de couro e, o melhor de tudo, hiperfininha: tem apenas 1 cm de espessura.

CINEMA EM CASA. MESMO
Agora d para ver os filmes em casa no mesmo dia em que estreiam nos cinemas. E no  pirataria. S tem um porm. 
     OS GRANDES lanamentos do ano, inclusive blockbusters como Jurassic World e Ted 2, na sua casa. Ou melhor, na sua manso.  que o tocador, que se chama Prima Cinema, sai por US$ 35 mil. E cada filme custa mais US$ 500. Para evitar a pirataria, o aparelho tem um leitor de impresses digitais: s roda o filme (que vem pela internet) depois de identificar voc. E a empresa s vende o aparelho depois de checar os seus antecedentes criminais 


A RESSURREIO DA NOKIA (FEAT. ANDROID)
A DIVISO DE CELULARES da Nokia foi comprada, em 2014, Microsoft - que assumiu o comando e aposentou a marca. Mas, agora, o que sobrou da gigante finlandesa est de volta: com o tablete Nokia N1. Ele  todo de alumnio e tem tela de 7,9 polegadas com resoluo de 324 dpi (pontos por polegada). Ou seja, lembra muito o iPad mini. Mas roda o sistema operacional Android (que nove entre dez fs da Nokia sempre quiseram que ela adotasse). Por enquanto, o N1 s est  venda na sia, pelo equivalente a US$ 250. Um belo recomeo.


PROLAS DO STREAMING
Tesouros escondidos nos principais sites
NETFLIX
At o Fim 
Filme 
Um velejador solitrio acorda e v que o barco comeou a fazer gua: no ponto mais remoto do Oceano ndico. Remenda o barco, fica calmo, pede socorro. Mas os dias passam. Ele luta, luta, luta. E algo acontece. A atuao da vida de Robert Redford - que, totalmente s, mal fala no filme. Nem precisa. 

NETFLIX 
Atari: Game Over 
Documentrio 
Em 1983, a indstria de games sofreu um colapso. Motivo: excesso de jogos ruins no mercado. O pior de todos foi ET, feito s pressas para acompanhar o filme. Um flop to colossal que a Atari enterrou 700 mil cpias no deserto. Este doc conta a histria - e vai at l desenterrar os cartuchos. 

YOUTUBE
Amigo Gringo 
Canal1
Seth Kugel passou vrios anos no Brasil, como reprter do New York Times. Falando assim, parece sisudo. Mas  o contrrio. Neste canal, com mais de 60 vdeos, Seth usa o humor pastelo para comentar as diferenas entre SP e NY- e d dicas hilrias para no ser (leia com sotaque) um "puta babaka". 

SPOTIFV 
Nils Frahm - Felt 
lbum 
O alemo Frahm, de 32 anos, bolou um novo jeito de gravar piano: pe os microfones dentro do instrumento, cujas cordas forra com feltro. Tudo para fazer menos barulho (o lbum foi gravado de madrugada, no ap dele). O resultado  incrvel, perfeito para ouvir em noites frias. 


UMA VIAGEM NO ESPAO-TEMPO
Existem universos paralelos - mas o que for feito em um afetar todos os outros. Inclusive o nosso.
H FSICOS QUE ACREDITAM na existncia de universos paralelos - nos quais ns supostamente estamos, ao mesmo tempo em que vivemos no nosso. Tomorrowland parte dessa teoria para construir uma aventura de fico cientfica que tem ao, tem efeitos especiais, tem George Clooney e Hugh "Dr. House" Laurie - e aparentemente tambm tem crebro (o roteiro foi escrito por Damon Lindelof, criador da srie Lost). Merece um voto de confiana.
Tomorrowland
Estreia nos cinemas dia 4/6.


A VINGANA DOS DINOS TRANSGNICOS 
Eles se cansaram de fazer showzinhos para turista. Chegou a hora de dar o troco. 
DEZ ANOS SE PASSARAM, e O Parque dos Dinossauros j no faz mais tanto sucesso. Mesmo com uma lista incrvel de bichos - que inclui o Mosassauro, lagarto gigante que come tubares em shows aquticos -, j no vende mais tantos ingressos. At que a empresa InCen, dona do parque, tem uma ideia genial: criar um hiperdinossauro, que mistura o cdigo gentico de quatro animais. D certo. O bicho  mais forte, mais agressivo, e principalmente mais inteligente do que qualquer outro. Um megassucesso. O parque lota, com 20 mil visitantes.  lgico que o monstro vai sair de controle e comear a tocar o terror. 
Jurossic World 
Estreia nos cinemas dia 11 

MOSASSAURO. 
CLASSE: Reptilia (rptil) 18 metros 5 toneladas. 
ALIMENTAO: carnvoro. 
POCA: 70 a 66 milhes de anos atrs.


CAIXAS DE SOM BLUETOOTH
Hoje os fones de ouvido so o grande palco da msica. Mas o homo smartphonis ainda quer ouvir msica em grupo s vezes - e a maneira moderna de fazer isso so as caixinhas Bluetooth. Qual delas  a melhor? Testamos seis: analisamos seus recursos, medimos a durao da bateria e avaliamos o principal: a qualidade de udio.

COMO TESTAMOS Usando um gerador de sinal e um microfone, nivelamos o volume das caixas. Tocamos 135 msicas de vrios gneros, na mesma ordem, at descarregar a bateria. Depois, para avaliar a qualidade de som, alternamos vrias vezes entre as caixas durante cada msica.

JBL Pulse
Tem DNA festeiro: parece uma lata de cerveja e  coberta por uma rede de LEDs, que piscam e oscilam no ritmo da msica ou conforme a programao que voc escolher (11 opes, configuradas por um app para Android e iOS). Os LEDs podem ser desligados. O som  alto e ntido, mas fica devendo graves: at a pequenina Level tem mais.
POTNCIA DECLARADA: 12w
BATERIA: 7h23 (com LEDs desligados)
PESO: 540g
R$ 1139,00
harmandobrasil.com.br 

Sony SRS-Xs
No  l muito compacta (parece um livro de 500 pginas), e voc ainda tem de levar o carregador - ela no carrega via USB. E no  barata. Mas vale a pena: a reproduo de som est em outro patamar, com graves de verdade e agudos idem. Tem qualidade aceitvel para uso tambm em casa, substituindo um microsystem.
POTNCIA DECLARADA: 20w (fora da tomada, cai para 8w)
BATERIA: 6h56 
PESO: 1,2kg
R$ 999,99
sonystyle.com.br
[escolha da SUPER]


Logitech X300
Espalha bem o som, pois tem falantes virados para a frente e para os lados. Tem um pouquinho de graves, toca alto e nunca distorce. s vezes reduz automaticamente o volume para evitar isso (correto, mas meio broxante). Para ouvir sem pretenso na praia ou piscina - at porque  emborrachada.
POTNCIA DECLARADA: 5w
BATERIA: 8h49 
PESO: 335g
R$ 449,90
logitech.com.br

TDK A360
 a maior e mais pesada de todas, e seu som  de longe o melhor: preenche bem o ambiente (os falantes ficam nas quinas da caixa) e tem graves  vontade. Seria a melhor opo, no fosse a bateria fraca. No nosso teste, ela mal durou 2 horas. Abaixando bem o volume, conseguimos chegar a 2h40. Pena.
POTNCIA DECLARADA: 22w
BATERIA: 2h03 
PESO: 2,4 kg
R$ 1459,00
disac.com.br/tdk

Philips BT2000A
Hiperpequena, para levar sempre na bolsa e nem sentir. Na hora de usar, voc puxa as pontas e ela abre feito uma sanfona. Toca alto e sem distorcer, mas quase sem graves (o falante  muito pequeno). Se voc no encanar com isso, mas quiser ter um sonzinho ok sempre  mo, pode ser uma boa.
POTNCIA DECLARADA: 2W
BATERIA: 3h54 
PESO: 150 g
R$ 249,00
philips.com.br

Samsung Level Mini
 como se fosse uma verso melhor - e mais cara - da Logitech. Tamanho e peso similares, mas com agudos melhores e bem mais graves. Inclusive graas ao app da caixa (para Android), que melhora bastante o som. A bateria dura muito, com um porm: aps 10 horas, o volume vai abaixando.
POTNCIA DECLARADA: n/d
BATERIA: 15h03 
PESO: 389 g
R$ 549,00
samsung.com.br

HACK
Como fazer uma caixa caseira
1- ARRANJE dois copos de 350 ml (podem ser de papel, espuma ou plstico duro) e um rolo de papelo, como o que vem no papel-toalha. 
2. FAA UM CORTE em cada copo, e cole-os no rolo de papelo. 
3- FACA UM CORTE, do tamanho do seu smartphone, no meio do rolo. Agora  s encaixar o celular e dar play. No  a mesma coisa que uma caixa a bateria, mas quebra o galho. 
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4# REPORTAGENS junho 2015

     4#1 CAPA - O LADO NEGRO DO FACEBOOK
     4#2 CAPA - A VERDADE SOBRE OS LIKES
     4#3 EDUCAO  FUGINDO DA ESCOLA
     4#4 O SENHOR DOS MSSEIS
     4#5 CHUPA, TERRA
     4#6 HISTRIA  LAMPIO, HERI OU VILO DO SERTO

4#1 CAPA - O LADO NEGRO DO FACEBOOK
Ele vigia os seus passos, mexe com a sua cabea, transforma voc em cobaia de experincias. Conhea as verdades que a maior rede social da histria da humanidade no quer que voc descubra.
Reportagem Alexandre de Santi (colaboraram Marcel Hartmann e Nathalia Tessler)
Edio Bruno Garattoni

     O FACEBOOK , DE LONGE, a maior rede da histria da humanidade. Nunca existiu, antes, um lugar onde 1,4 bilho de pessoas se reunissem - e 936 milhes entrassem todo santo dia (s no Brasil, 59 milhes). Metade de todas as pessoas com acesso  internet, no mundo, entra no Facebook pelo menos uma vez por ms. Ele tem mais adeptos do que a maior das religies (a catlica, com 1,2 bilho de fiis), e mais usurios do que a internet inteira tinha dez anos atrs. Em suma:  o meio de comunicao mais poderoso do nosso tempo, e tem mais alcance do que qualquer coisa que j tenha existido. A maior parte das pessoas o adora, no consegue conceber a vida sem ele. Tambm pudera: o Facebook  timo. Nos aproxima dos nossos amigos, ajuda a conhecer gente nova e acompanhar o que est acontecendo nos nossos grupos sociais. Mas essa histria tambm tem um lado ruim. Novos estudos esto mostrando que o uso frequente do Facebook produz alteraes fsicas no crebro. Quando estamos nele, ficamos mais impulsivos, mais narcisistas, mais desatentos e menos preocupados com os sentimentos dos outros. E, de quebra, mais infelizes. 
     No ano passado, pesquisadores das universidades de Michigan e de Leuven (Blgica) recrutaram 82 usurios do Facebook. Durante duas semanas, eles enviaram perguntas via SMS, cinco vezes por dia, para os voluntrios. As perguntas eram "como voc est se sentindo agora?", "como voc avalia a sua vida?" e "quanto tempo voc ficou no Facebook hoje?". O estudo mostrou uma relao direta: quanto mais tempo a pessoa passava na rede social, mais infeliz ficava. Os cientistas no sabem explicar o porqu, mas uma de suas hipteses  a chamada inveja subliminar, que surge sem que a gente perceba conscientemente. J deve ter acontecido com voc. Sabe quando voc est no trabalho, e dois ou trs amigos postam fotos de viagem? Voc tem a sensao de que todo mundo est de frias, ou que seus amigos viajam muito mais do que voc. E fica se sentindo um fracassado. "Como as pessoas tendem a mostrar  s as coisas boas no Facebook, achamos que aquilo reflete a totalidade da vida delas", diz o psiquiatra Daniel Spritzer, mestre pela UFRGS e coordenador do Grupo de Estudos sobre Adies Tecnolgicas. "A pessoa no v o quanto aquele amigo trabalhou para conseguir tirar as frias", diz Spritzer. 
     E a vida em rede pode ter um efeito psicolgico ainda mais assustador. Durante 30 anos, pesquisadores da Universidade de Michigan aplicaram testes de personalidade a 14 mil universitrios. Cada voluntrio tinha de dizer se concordava ou discordava de afirmaes como: "eu tento entender como meus amigos se sentem" e "eu geralmente me preocupo com pessoas menos favorecidas do que eu". So perguntas criadas para medir o grau de empatia de uma pessoa - o quanto ela se importa com as outras. Em 2010, os cientistas publicaram os resultados. Os jovens da gerao atual, que cresceram usando a internet, tm 40% menos empatia que os jovens de trs dcadas atrs. E essa tendncia fica mais intensa a partir dos anos 2000, perodo que coincide com a ascenso das redes sociais. A explicao disso, segundo o estudo,  que na vida online fica fcil ignorar as pessoas quando no queremos ouvir seus problemas ou crticas - e, com o tempo, esse comportamento indiferente acaba sendo adotado tambm na vida offline. 
     Num meio competitivo, onde precisamos mostrar como estamos felizes o tempo todo, h pouco incentivo para diminuir o ritmo e prestar ateno em algum que precisa de ajuda. H muito espao, por outro lado, para o egocentrismo. Em 2012, um estudo da Universidade de Illinois com 292 voluntrios concluiu que, quanto mais amigos no Facebook uma pessoa tem, e maior a frequncia com que ela posta, mais narcisista tende a ser - e maior a chance de fazer comentrios agressivos. Esse ltimo resultado  bem surpreendente, porque  contraintuitivo. Ora, uma pessoa que tem muitos amigos supostamente os conquistou adotando comportamentos positivos, como modstia e empatia. O estudo mostra que, no Facebook, tende a ser o contrrio. 
     Junte a indiferena com o narcisismo e a competio e voc chegar ao terceiro elemento negativo das redes sociais: o dio. Em tese, as redes sociais deveriam nos aproximar uns dos outros. Afinal, usamos nossos nomes reais, postamos fotos verdadeiras e sabemos se uma pessoa tem amigos em comum conosco. Como explicar, ento, que pessoas que jamais brigariam na vida real - sobre futebol, sobre poltica, sobre qualquer assunto - fiquem se xingando no Face? E que isso seja to comum? 
     No existe uma resposta direta. Mas existem algumas pistas muito boas. Em 2013, pesquisadores da Universidade Benihang, na China, analisaram 70 milhes de posts do Weibo, rede social chinesa que mistura caractersticas do Twitter e do Facebook. Usando um software que lia palavras-chave, eles classificaram cada post como alegre, triste ou irritado - e viram como ele se propagava pela rede. As mensagens irritadas eram as que se espalhavam mais rpido, e chegavam mais longe: eram replicadas por pessoas a at trs nveis de separao do autor (o amigo do amigo do amigo repetia o post). 
     "Quando a pessoa est online, h uma desinibio. Ela fica mais solta", afirma o psicoterapeuta Cristiano Nabuco, do grupo de pesquisas em dependncia tecnolgica da USP. Isso acontece, segundo ele, por causa da distncia fsica. Como no esto frente a frente, as pessoas se sentem mais  vontade para trocar acusaes e insultos. E no Facebook basta um clique para curtir ou replicar o que outra pessoa disse - inclusive insultos. "Isso potencializa a agresso, porque eu posso fazer uma ofensa e dez pessoas vo l e me ajudam na ofensa, vira um grupo ofendendo uma pessoa", explica Ana Luiza Mano, do Ncleo de Pesquisa de Psicologia em Informtica da PUC-SP. 
     E isso pode ter consequncias profundas. Segundo o Mapa da Violncia 2014, um estudo elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Cincias Sociais, o nmero de suicdios entre adolescentes brasileiros cresceu 36,7% entre 2000 e 2012 (o dobro do aumento nas demais faixas etrias). O estudo no acusa as redes sociais. Mas o perodo em que os suicdios crescem coincide com a ascenso delas. 
     Se voc se sentir mal por causa do Facebook, basta se desconectar ou colocar o celular no bolso, certo? No  to fcil assim. Porque as redes sociais mexem com o ncleo accumbens, uma regio que fica no meio do crebro e regula o chamado "sistema de recompensa". Quando fazemos alguma coisa agradvel - comemos algo gostoso e calrico ou fazemos sexo, por exemplo -, esse sistema libera dopamina, um neurotransmissor que nos d prazer.  a forma de o crebro nos dizer que aquilo (comer bem ou se reproduzir)  vital para nossa sobrevivncia, e, por isso, devemos repetir sempre que possvel. Trata-se de um mecanismo ancestral, que se desenvolveu muito antes da internet. Em 2013, um estudo da Universidade Livre de Berlim descobriu que ganhar likes no Face ativa esse mesmo sistema. Cada "curtida" que recebemos provoca uma liberao de dopamina, como as que temos ao comer e fazer sexo. "A sensibilidade do ncleo accumbens leva  mudanas de comportamento no mundo real", explica, no estudo, o neurocientista Dar Meshi. Por isso o Facebook  to irresistvel. 
     S que abusar dele  perigoso. Pode literalmente deformar o crebro. Em 2012, um grupo de cientistas chineses analisou 17 adolescentes viciados em internet - que ficavam conectados pelo menos 5h30 por dia e tinham problemas na vida social por causa disso. As imagens dos exames revelaram anormalidades no crtex orbitofrontal, regio que nos ajuda a controlar impulsos, e no corpo caloso, que conecta os dois hemisfrios do crebro. Segundo o estudo, os danos eram similares aos encontrados em viciados em lcool e cocana. 
     As redes sociais esto mexendo conosco. Inclusive de propsito - como quando o Facebook realizou uma experincia secreta e polmica, em que as cobaias foram os prprios usurios.

COBAIAS INVOLUNTRIAS 
     Em junho de 2014, surgiu um artigo cientfico de arrepiar. Assinado por um cientista da Universidade de Cornell e por pesquisadores do Facebook, ele contava como o site manipulou a timeline de 689.003 pessoas, ao longo de uma semana, sem que elas soubessem. O objetivo era saber se, mexendo no contedo da timeline, o Facebook conseguiria alterar o humor dos usurios. A resposta foi sim. Quando o Facebook omitia posts alegres, as pessoas ficavam mais tristes - usavam mais palavras negativas em suas mensagens. E vice-versa. A concluso do estudo  clara: "As mensagens online influenciam nossas emoes e comportamento". Assim que ele foi publicado, o Facebook recebeu uma saraivada de crticas. Algumas diziam que o estudo violou a tica cientfica (porque no se pode transformar algum em cobaia sem o consentimento da pessoa), outras que a experincia foi simplesmente cruel. O Facebook alegou que, quando criaram seus perfis no site e aceitaram os "Termos de Uso", as pessoas haviam automaticamente consentido em participar do estudo. Mas pediu desculpas pela experincia. 
     O Facebook continua manipulando o que voc v na sua timeline. Isso  definido por um algoritmo que se chamava EdgeRank, foi criado pelo prprio Face e originalmente seguia trs critrios: afinidade (o quanto voc interage com o autor daquele post), engajamento (nmero de likes, comentrios e compartilhamentos que o post teve) e tempo (notcia velha no tem vez). Hoje, o algoritmo  muito mais complexo - segundo o Facebook, calcula mais de 100 mil variveis, ajustadas de acordo com cada usurio. A empresa no diz quais so, inclusive por um segredo comercial - do contrrio, o algoritmo poderia ser copiado por outras redes sociais. Mas h quem diga que o sigilo tambm  uma maneira de adulterar o contedo distribudo aos usurios para lucrar em cima disso (leia na reportagem a seguir). "O Facebook est na fronteira do eticamente questionvel. s vezes ele  tico, s vezes  antitico. Ele te d benefcios, mas cobra por isso", diz Raquel Recuero, professora de comunicao da Universidade Catlica de Pelotas e pesquisadora de redes sociais. 
      comum ver usurios do Facebook desconfiados com as polticas da empresa, ou temerosos de que ela tenha informaes demais. Se voc  um deles, h uma boa maneira de buscar respostas: solicitar o download de todas as informaes que o Facebook coletou sobre voc. Eu fiz isso,  fcil (veja quadro ao lado). Recebi um pacote de arquivos que totalizavam 28 megabytes. Todas as fotos e vdeos que eu publiquei na rede estavam l. Todos os meus chats, todas as cutucadas que eu recebi (uma nica, em 5 de setembro de 2014, de uma pessoa que eu no conheo - fiquei chateado), todos os eventos para os quais fui convidado, incluindo os que eu ignorei. Se eu tivesse um post privado (no publicado), estaria l tambm. Posso ver todas as atividades do meu mural e at coisas que fiz em outros servios. Posso ver as msicas que ouvi no Rdio, em que dia, hora e ordem, pois minha conta nesse servio de streaming est conectada ao Facebook. 
     O pronturio tem muita coisa. Mas no tem uma coisa extremamente importante: a lista com os sites que eu visitei. Porque, sim, o Facebook sabe por onde eu andei na internet. Sabe quando voc entra num site, qualquer um, e ele tem um botozinho que permite dar like em alguma coisa? Esse boto  uma convenincia para voc, e um mecanismo de monitoramento para o Facebook: quando voc entra naquela pgina, ele fica sabendo (mesmo se voc no apertar o boto de like). Esse sistema serve para que o Facebook mostre anncios relacionados s coisas que voc pensa em comprar. Se voc entra numa loja virtual e procura uma geladeira, por exemplo, essa informao  passada para o Facebook  que  passa a exibir anncios de geladeiras. "O Facebook poderia tomar aes mais fortes para permitir que as pessoas tivessem mais privacidade. Mas isso vai contra o modelo de negcio dele", diz Recuero. O mecanismo est presente em grande parte da internet, inclusive em sites que nada tm a ver com comrcio eletrnico, e permite que o Face grave os seus passos pela web, silenciosa e ininterruptamente. Ele no  o nico: o Google tambm faz algo do tipo. Um monitoramento que parece sado do clssico 1984, o romance distpico de George Orwell. 
     O sistema funciona graas aos cookies, pequenos arquivos de texto que so colocados no seu computador ou celular e o identificam enquanto voc navega na internet. Na Europa, a lei determina que o usurio tenha de aprovar cada um dos cookies depositados no seu computador. Mas um relatrio da Comisso de Privacidade da Blgica, divulgado em maro, concluiu que o Facebook est violando a lei, plantando cookies nos computadores das pessoas sem a permisso delas. Segundo o relatrio, ele usa cookies para monitorar usurios que no esto logados na sua rede - e at gente que jamais teve uma conta de Facebook. A empresa negou a prtica e disse que o relatrio tem erros. 
     O mergulho nos meus dados pessoais ficou entre o fascinante e o perturbador. O mais esquisito  que concordei em dar todo esse acesso ao Facebook. "Ao clicar em Abrir uma conta, voc concorda com nossos Termos, incluindo nosso Uso de Cookies", diz o texto. Quase ningum o l: apenas 7% dos usurios, segundo uma pesquisa de 2011. No caso do Facebook, o documento oficial tem mais de 23 mil caracteres - mais do que esta reportagem -, e passa de 80 mil somando os subitens. Ou seja,  dificlimo de ler. Isso no  exclusividade do Facebook. Os contratos que voc "assina" ao se inscrever nos servios online sempre so longos e tortuosos. Talvez porque no existam para serem lidos - mas para que as empresas tenham poderes enormes sobre voc. E porque, mesmo sabendo disso, e de tudo o que o Facebook faz, voc dificilmente vai parar de us-lo. Eu no vou.

COMO NO SER VIGIADO PELO MESSENGER 
O aplicativo de mensagens do Facebook monitora a sua localizao. Veja como evitar. 
1- No Android, abra o Messenger e entre em Configuraes. Desabilite o item "Localizao". 
2- No iOS, clique em Ajustes para entrar nas configuraes do sistema. Procure o item correspondente ao Messenger - e desabilite o item "Localizao".

COMO NO TER A SUA NAVEGAO MONITORADA 
O Facebook tem como saber em quais sites voc entrou. Mas  possvel impedir. 
1- Instale o programa Disconnect (disconnect.me).  grtis e roda em PC, Mac e Android (a verso para iOS ainda no est pronta).
2- O Disconnect bloquear automaticamente o monitoramento. 
3- Ele s tem um efeito colateral. Os botes para dar "like" em posts no aparecero nos sites que voc visitar. 

COMO VER O QUE ELE SABE SOBRE VOC 
 possvel baixar um arquivo com alguns dos dados que o Facebook tem a seu respeito.
1- Entre no Facebook e clique em "Configuraes" e "Baixar uma cpia dos seus dados".
2- Voc receber seu pronturio por e-mail. Abra e execute o arquivo "Index.htm". 
3- So 17 tipos de dados, que incluem tudo o que voc j postou ou fez no Face, temas que ele julga serem do seu interesse e at lugares onde voc esteve.

9 HORAS E 12 MINUTOS POR DIA  O TEMPO QUE OS BRASILEIROS PASSAM CONECTADOS  INTERNET 
3 horas e 48 minutos NO CELULAR OU TABLET.
5 horas e 24 minutos NO COMPUTADOR.
3 HORAS E 47 MINUTOS  O TEMPO QUE CADA BRASILEIROS PASSA, DIARIAMENTE, NAS REDES SOCIAIS.
Fonte: Digital, Social e Mobile 2015, agncia We Are Social

300 PB (PETABYTES) OU 300 MILHES DE GIGABYTES,  A CAPACIDADE DE ARMAZENAMENTO DO FACEBOOK.
600 TB (TERABYTES) OU 600 MIL GIGABYTES,  A QUANTIDADE DE DADOS QUE ELE RECEBE POR DIA.
0,6 MB (MEGABYTES)  A QUANTIDADE DE NOVOS DADOS GERADOS, POR USURIO, POR DIA.
Fonte: Facebook.

A SUPER entrou em contato 11 vezes com o Facebook, entre os dias 16 e 30 de abril, solicitando que concedesse uma entrevista ou respondesse por escrito s questes discutidas nesta reportagem. A empresa preferiu no se manifestar.


4#2 CAPA - A VERDADE SOBRE OS LIKES
Eles so a grande moeda social do nosso tempo. Mas talvez no devessem ser. Porque basta dar dinheiro ao Facebook para conseguir likes - para absolutamente qualquer coisa, inclusive as mais estapafrdias. Foi o que eu fiz. 
Texto Bruno Garottoni

     VOC SABE COMO OS LIKES SO IMPORTANTES. As pessoas medem a prpria autoestima, e a amizade dos amigos, pelos likes que recebem deles. As empresas tambm fazem de tudo por curtidas: planejam, decidem e at promovem funcionrios de acordo com elas. Likes valem muito. Mas talvez no devessem. Porque, como voc descobrir nesta reportagem, eles fazem parte de um jogo - que pode ser burlado dando dinheiro ao Facebook. 
     Sabe quando voc entra numa pgina do Face e d like nela? Pode ser qualquer pgina: a do Corinthians (curtida por 10,2 milhes de pessoas), a da SUPER (3,3 milhes), a do seu restaurante ou escritor favorito. Quando voc curte aquela pgina, passa a receber, na sua timeline, os posts que ela publicar. Certo? Errado. O Facebook no avisa, mas, quando voc curte uma pgina, na verdade tem uma chance bem pequena de receber as publicaes dela. Tudo por causa de uma coisa chamada "alcance orgnico". Esse termo mede quantos % das pessoas inscritas numa pgina recebem os posts que ela publica. Se todas as pessoas recebessem, o alcance seria de 100%. Mas sabe quanto , na prtica? 6,5%. Ou seja: de cada cem pessoas que curtem uma pgina, apenas seis, em mdia, recebem o contedo postado por ela. Foi o que constatou um estudo feito em 2014 pela empresa EdgeRank Checker, que analisou o alcance de 50 mil posts publicados por mil pginas. E isso  o teto. "Em muitos casos, a taxa  at menor", diz Walter Motta, diretor da agncia Riot, que produz contedo de Facebook para empresas. O Face alega que essa restrio  necessria. Se ele mostrasse tudo, as timelines das pessoas seriam inundadas por um excesso de contedo. "Hoje, o brasileiro tem em mdia 400 amigos e curte mais de cem pginas. Se todas as publicaes fossem exibidas, em ordem cronolgica e sem filtro, voc j teria abandonado sua conta h muito tempo", explica Morta. Faz sentido. Mas tambm h outra questo envolvida. 
     S nos primeiros trs meses deste ano, o Facebook faturou US$ 3,5 bilhes. E esse dinheiro vem de um lugar: publicidade. Ou seja, as taxas que o Facebook cobra para promover e distribuir posts. Se voc criar uma pgina, e no pagar essas taxas, ele s mandar os seus posts para pouqussimas pessoas. E voc no ter acessos nem likes. No ser popular, no vai bombar. No far sucesso. 
     J, pelo contrrio, se voc aceitar pagar... sua pgina ganhar um monto de likes. Inclusive se ela for indizivelmente imbecil. Foi o que eu descobri fazendo um teste ao longo de duas semanas. Para no contaminar o resultado, mantive a coisa em segredo total - no contei nem para meus colegas da SUPER, que s ficaram sabendo da experincia depois de concluda. Para evitar possveis interferncias, o Facebook s foi informado do teste depois que ele j tinha terminado e as provas haviam sido coletadas. A empresa recebeu por escrito uma descrio detalhada da minha experincia, com uma semana de prazo para responder. Ela no se manifestou. 

INOTTARAG, MUITO PRAZER 
     Decidi montar uma pgina completamente sem contedo e sem sentido, que nenhum ser humano em s conscincia jamais curtiria - e colocar dinheiro na ferramenta de publicidade do Facebook para ver se, mesmo assim, minha pgina conseguiria curtidas. Se desse certo, isso provaria uma tese: basta pagar para ter likes sobre qualquer coisa. Mesmo. 
     Usando uma conta falsa, que criei apenas para a experincia e no tinha nenhum amigo no Face, publiquei quatro pginas. Foram quatro porque chegar ao nonsense perfeito foi mais difcil do que eu imaginava. Afinal, quase tudo pode ter algum significado para algum. No  fcil criar uma pgina que seja infinitamente, perfeitamente, sem sentido. 
     Minha primeira pgina se chamava Tijolo, e trazia apenas a singela foto de um tijolo. Imediatamente apareceu uma mensagem perguntando se eu no gostaria de "promov-la". Claro, a ideia era essa. Aceitei e o Facebook emitiu um boleto bancrio. Paguei, adicionei crditos  minha conta, e comecei a brincar. Investi R$ 20 na minha pgina. Enquanto eu configurava minha "campanha publicitria", algo me chamou a ateno. O Facebook me prometeu um determinado nmero de likes por dia. Veja bem, ele no disse que iria mostrar minha pgina a X pessoas, que poderiam gostar dela ou no. Fez algo bem diferente: disse que X pessoas iriam me dar likes. Dito e feito. Em poucas horas, consegui 69 curtidas. Mas havia um problema: aquilo no provava nada. Afinal, talvez as pessoas estivessem curtindo minha pgina porque quisessem ler sobre tijolos e materiais de construo. Eu precisava inventar algo com menos sentido. Algo que ningum pudesse ter motivos legtimos para curtir. Depois de pensar bastante, criei a pgina Inottarag - no significa nada,  apenas o meu sobrenome ao contrrio. A pgina tambm no tinha nenhum contedo. Mas, ao longo de uma semana, recebeu 167 likes. Graas,  claro, aos R$ 96 que paguei ao Facebook. 
     Comecei a entrar em contato, pelo prprio Face e agora usando meu nome real, com as pessoas que tinham curtido a pgina Inottarag. Perguntei se elas realmente tinham dado like, e por qu. Quarenta tentativas, zero respostas.  que, como no sou amigo dessas pessoas, minhas mensagens estavam caindo na caixa postal secundria, que quase ningum olha. Mas lembrei que, no Facebook, um dinheirinho sempre ajuda. Se voc pagar R$ 0,88 por mensagem, ela vai para o local certo - literalmente pula na tela da pessoa. Mandei outras 40 mensagens, pagando. Desta vez, mais de dez pessoas responderam. 
     Mas sempre de modo pouco esclarecedor. Umas falavam coisas truncadas, como "Eu s de dor 2 dia para VC mim terga", ou simplesmente diziam que tinham achado a pgina "interessante". Quando eu insistia em perguntar o porqu, sumiam. 
     Para provar que absolutamente qualquer coisa poderia ganhar likes, desde que se d dinheiro ao Facebook, eu teria de ir alm. E fui. Digitei uma combinao aleatria no teclado: Sdftyu459867. Criei uma pgina com esse nome, e outra de nome praticamente idntico: Sdftyu459868 (muda apenas o ltimo dgito, de 7 para 8). Ambas vazias, sem nenhum post ou descrio. Na primeira, no coloquei nenhum dinheiro. Mas investi R$ 70 para que o Facebook promovesse a segunda. O resultado no poderia ser mais claro. A primeira pgina teve zero like. J a outra, turbinada pelo dinheiro, ganhou 184. 
     Comecei a olhar os perfis das pessoas que tinham curtido, e logo de cara tomei um susto. Normando Jnior! Essa pessoa j tinha curtido uma das minhas pginas anteriores (Inottarag), e tambm dera like na nova (Sdftyu459868). Era o elo perdido, a chave para tentar entender o que estava acontecendo. O perfil do sujeito dizia que ele trabalhara numa pizzaria em Recife, e trazia uma foto de Normando sentado num banco, todo sorridente - com alguns comentrios de amigos ("S luxaaaaandooo!!"). Mandei uma mensagem perguntando por que ele tinha curtido minhas pginas. Resposta: "Bruno curto no mais valeu" (sic). Insisti, perguntei se isso significava que, na verdade, ele no curtira minhas pginas (o que poderia ser um indcio de fraude). Normando foi ainda mais ambguo - respondeu apenas com um smbolo de joinha. 
     Tentei falar com mais pessoas. Uma ou outra respondeu, sempre seguindo o mesmo padro pouco esclarecedor: "No tinha nada pra curtir, mas eu curti assim mesmo". Fui perdendo o nimo at que, por algum motivo, o Facebook passou a me  impedir de enviar mensagens pagas. Ele deixou de ganhar alguns reais - e eu perdi meu nico jeito de entrar em contato com as pessoas que tinham curtido minhas pginas falsas. Aparentemente, pelo menos algumas delas eram gente de verdade, no robs programados para dar cliques. Por que deram likes, jamais saberemos. 
     Mas agora voc sabe como o jogo funciona. No leve os likes a srio, porque as pessoas curtem absolutamente qualquer coisa. Basta dar dinheiro ao Facebook. Quando voc vir uma pgina que teve muitas curtidas, saiba que podem ter sido compradas. Acontece em toda parte. Inclusive no Departamento de Estado dos EUA, que em 2013 confessou ter pago US$ 630 mil ao Facebook para ter mais likes em sua pgina. Deu certo: gerou 2 milhes de curtidas. Cada uma custou US$ 0,30. As minhas, pelo menos, foram mais baratas - R$ 0,38 cada.


4#3 EDUCAO  FUGINDO DA ESCOLA
Cerca de 2.500 famlias brasileiras instruem os filhos fora das salas de aula - e fora da lei. Muitos deles so adeptos do unschooling, movimento que quer mais do que tirar as crianas de dentro da escola: o objetivo  tirar a escola de dentro de alunos, pais e mestres.
Reportagem Alice Ribeiro
Edio Tiago Jokura

     "MINHA FILHA no sabe o que  ser obrigada a acordar cedo, colocar uma mochila nas costas, estudar o que um professor decidiu que ela deveria saber e ter de fazer uma prova para mostrar do que  capaz", conta Cleber Nunes sobre a filha Ana, de 8 anos. "Nessa idade, o nico compromisso de uma criana  brincar. Ela aprende s o que acha interessante. E, mesmo assim, fazemos com que isso faa parte da brincadeira. Sem agenda. Sem ritmo." O que Cleber ensina neste depoimento  o princpio do unschooling  desescolarizao, em traduo livre , prtica que consiste em expor a criana ao mundo, perceber seus interesses e facilitar para que cada situao seja uma chance de aprendizagem. Tudo isso fora da escola  e da lei. 
     No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases da Educao (LDB) afirma ser deve  dos pais ou responsveis matricular os menores na rede regular de ensino a partir dos 4 anos. Foi com essa idade, e sem nunca ter pisado em uma sala de aula, que Ana Nunes aprendeu a ler. Caula de uma famlia de Timteo, municpio mineiro com pouco mais de 80 mil habitantes, ela nasceu para no ter matrcula. Por causa do bullying e da violncia no ambiente escolar - e por julgar o contedo das aulas fraco -, Cleber j havia tirado os filhos mais velhos do ensino fundamental. E ele no est sozinho. No Brasil, estima-se que cerca de 2.500 famlias instruam os filhos assim. Em todo o mundo, mais de 60 pases permitem ensinar em casa. Na lista esto Reino Unido, Canad, Rssia, Austrlia e Frana. Nos EUA, mais de 2 milhes de crianas no frequentam a educao regular. 
     "As famlias tm, cada vez mais, uma vontade de no terceirizar a educao dos filhos.  preciso entender, porm, que a desescolarizao no  apenas sair da escola, mas tirar a escola de dentro da gente", afirma Patrcia de Cares Sogayar, cofundadora do programa Famlias Educadoras, que rene pais e mes dispostos a criar ambientes que promovam a aprendizagem a partir do interesse dos filhos. 'Tudo passa por eliminar a fragmentao do aprendizado, deixar a potncia da criana florescer. Quando o interesse parte dela, ela ganha outro brilho no olhar. A vida passa a ser o currculo." No incio deste ano, por exemplo, Ana ficou to entusiasmada com a multiplicao dos nmeros que os pais introduziram a lgica dos grficos. Ela adorou. Sem preocupao com a idade "adequada" para travar contato com qualquer tipo de contedo, a garota devorou A Volta ao Mundo em 80 Dias, romance de aventura de Jlio Verne. A me, Beth, aproveitou o itinerrio de Phileas Fogg para apresentar o mapa-mndi  filha e contar um pouquinho da histria dos pases que o ingls visitou  caa do ladro que subtraiu 55 mil libras do Banco da Inglaterra. 
     Ana viaja pela literatura estrangeira e por planos cartesianos sem desconfiar que tambm est sendo caada. Saber onde fica Calcut sem ajuda do Google no vale nada para que o Estado considere que ela esteja sendo instruda. No ano passado, ao constatar que ela no estava matriculada, o Conselho Tutelar avisou o Ministrio Pblico. A promotora conheceu a menina, mas ainda no emitiu parecer. Cleber, escolado no assunto, no teme. Quando no matriculou Davi e Jnatas, a histria foi a mesma. Entre a denncia, em 2006, e o veredicto, em 2010, ele tentou convencer o juiz de que cumpria os objetivos pedaggicos com os filhos: submetidos a um teste de conhecimentos, os dois fizeram mais pontos do que o estipulado. No adiantou. Cleber foi condenado por abandono intelectual, crime que prev pagamento de multa ou um ms de priso. Como protesto, at hoje no pagou os R$ 500 da sentena. 
     Desta vez, antecipando-se ao que a Justia pode decidir sobre Ana, ele redigiu uma carta ao Ministrio  Pblico argumentando que "o direito  escola no pode ser confundido com a imposio de frequncia escolar". O documento foi enviado a outras famlias que respondem  Justia para ser encaminhado como referncia de defesa.  uma tentativa de criar jurisprudncia - conjunto de decises que sirvam como referncia para orientar juzes em casos semelhantes -, uma vez que, com a pulverizao das iniciativas, o Judicirio no tem um padro para reagir s denncias. Mas tambm  uma mostra de fora do movimento, hoje representado pela Associao Nacional de Ensino Domiciliar (Aned), fundada em 2010. A entidade promove encontros de pais e apoia famlias com suporte jurdico. Alm disso, pressiona o Congresso para aprovao do projeto de lei 3.179/12, que regulamenta a educao domiciliar no Pas. A proposta do deputado federal Lincoln Portela (PR-MG)  de que estudantes possam aprender em casa, supervisionados e avaliados periodicamente.  

LICENA PARA ESTUDAR 
     No Brasil, h s um caso de unschooling aprovado pela Justia. Em Maring (PR), o pedagogo Luiz Carlos Faria da Silva e a esposa Dayane podem educar em casa os filhos Lucas, 16 anos, e Julia, 15. Assim que no renovou a matrcula das crianas, em 2007, o casal foi denunciado. Aps algumas audincias, o juiz liberou que os filhos estudassem em casa, mas com avaliaes anuais e acompanhamento pedaggico e psicolgico. 
     Em oito anos, a famlia nunca seguiu currculo fixo. Para aprender matemtica, Lucas e Julia fizeram Kumon - mtodo japons que incentiva a autonomia nos estudos. As aulas de ingls eram com uma professora particular. Geografia, Histria, Cincias e Literatura foram aprendidas no dia a dia: o terrao do prdio em que moram, por exemplo, foi a sala de aula onde compreenderam o amanhecer e o poente. O restante do tempo foi preenchido com cursos de bal, de natao e de msica - oportunidades para que eles socializassem. Mais recentemente, a dupla comeou a assistir a videoaulas gratuitas. No fim do ano passado, Lucas prestou o Enem e conseguiu pontuao para obter o certificado de concluso do ensino mdio e entrar em uma universidade. 
     Antes da faculdade, no entanto, os irmos devem cabular mais um pouco: a ideia  morar um tempo fora do Pas, em algum projeto de intercmbio ou de voluntariado. Ao avaliar a deciso de anos atrs, Luiz acredita ter escolhido certo, mesmo que isso tenha interrompido a carreira da mulher. "Nunca imaginamos isso. Tnhamos expectativas boas e pesquisamos muito para encontrar a melhor escola. Quando os matriculamos, achvamos estar fazendo o melhor. At notarmos que no queramos aquilo para eles." O pedagogo refere-se a valores morais que considera inadequados mesmo em instituies confessionais, como o colgio catlico em que os filhos estudaram. "Eles ficavam assustados com a indisciplina, com amigos que no respeitavam crianas com deficincia."  

Liberdade controlada 
     A decepo de Luiz costuma motivar outro tipo de educao caseira: o homeschooling. Nesse modelo, os pais seguem o currculo escolar em casa, com horrios estipulados de estudo e metas de aprendizagem. Muitos dos adeptos fazem essa opo para educar os filhos longe do bullying e de um ensino religioso que a famlia desaprove. Em um mapeamento feito com 62 famlias brasileiras - fazer esse tipo de pesquisa  difcil, j que vrios entrevistados agem na clandestinidade - o pesquisador Andr de Holanda Padilha Vieira, da Universidade de Braslia (UnB), construiu um retrato do homeschooling no Brasil. Quase todos os pais-educadores so casados e tm escolaridade superior  mdia nacional. Em 70% das famlias, as mes encabeam a educao caseira, enquanto os pais tm ocupao fora do lar; em 84% dos casos, os pais estabelecem um perodo dirio de aprendizagem de at quatro horas. 
     A famlia de Eliseu Moreira Jnior, 20 anos, encaixa direitinho nesse  perfil. Quando tinha 8 anos, os pais tiraram os trs filhos da escola. Os irmos, Samir, com 7 anos, e Hadassa, 10, no gostaram e voltaram s aulas. Vtima de provocaes por ser negro e tmido, Eliseu aprovou. "Foi bom me livrar do bullying, mas no foi isso que motivou meu pai. Ele queria preservar nossa f. No concordava com muitas coisas do colgio e temia que fssemos influenciados." 
     O pai organizou um calendrio com horrios e contedo. Coube  me, Maria Neide, que havia cursado o magistrio, virar professora dos filhos. A partir do ensino mdio, cada um estudava sozinho as disciplinas que precisava para o vestibular. Com ideia fixa de cursar Medicina, Eliseu comprou aulas virtuais de Qumica, Fsica e Matemtica. Em 2013, fez 920 pontos na redao do Enem, mas a nota da prova no foi suficiente. No ano passado, dedicou-se mais s disciplinas de Exatas, melhorou o desempenho e ingressou na Universidade Estadual de Santa Cruz, na regio de Itabuna (BA), onde vive a famlia. 
     Agora, a fama do futuro mdico que passou no vestibular sem frequentar o colgio cresce na cidade. E faz discpulos. "Quando meus pais trouxeram a escola para casa, s eles faziam isso por aqui. Agora so muitos, mas ficam calados, se escondendo do Conselho Tutelar." 

A TODA PROVA? 
     O rendimento acadmico de Ana e Eliseu, assim como as atividades socializantes de Lucas e Julia, respondem aos questionamentos mais comuns dos pedagogos na poca em que o ensino caseiro engatinhava no Brasil, no incio dos anos 2000. Atualmente, j no se discute a capacidade das famlias de garantir o aprendizado e a socializao dos filhos fora da escola. 
     No entanto, outras questes mais complexas e sutis vm  tona. Pedagoga da Universidade Federal de So Carlos (Ufscar), Luciane Diniz Barbosa defendeu, em 2013, uma tese de doutorado sobre o ensino domiciliar no Brasil. Ao acompanhar o desenrolar jurdico de  alguns casos e compar-los a experincias internacionais, a pesquisadora chama a ateno para pontos pouco discutidos, como a no participao dos filhos na escolha por estudar na escola ou no e o cardpio restrito de contedo oferecido a eles em casa. 
     Em relao  opo por ensinar em casa, Luciane acredita que boa parte dos pais considera a prpria m experincia como estudante para decidir no matricular os filhos na rede de ensino. "O ideal  que a deciso seja dos filhos. No Canad, conheci uma me que fazia homeschooling com a criana mais nova, que no se adaptou  escola. As duas mais velhas adoravam o colgio e nunca saram. Isso  respeitar a liberdade da criana", diz Luciane. 
     Tambm em nome da liberdade, esses pais tentam oferecer experincias que potencializem o aprendizado de temas que interessem aos filhos. A inteno  boa, mas a prtica pode ser limitadora. "No necessariamente a criana ter interesses em coisas que no conhece. Um estudante cuja  famlia estimule o estudo das artes e das humanidades pode no ter a chance de aprender conceitos de qumica ou biologia. E se um dia ele pensar em ser mdico ou farmacutico?", questiona a educadora. "Ser que no unschooling a gente tambm no est tolhendo ou limitando as possibilidades da criana?" 
     So questes que deveriam ser consideradas caso o Brasil optasse por regulamentar a escola em casa, uma vez que o Estado seria responsvel por prover estrutura para avaliao acadmica e psicolgica dos alunos. E a surge a terceira ponderao da pesquisadora: o custo da regulamentao do ensino domiciliar. "Os pases que j tm o bsico, como acesso de todos  escola e qualidade na educao, esto livres para custear alternativas. Com a educao do jeito que est, o governo deve investir nisso ou gastar com melhorias bsicas da rede pblica?" Em casa ou na sala de aula, soltos na rua ou amarrados a contedos curriculares, parece que todos ainda temos muito a aprender. 

T EM CASA
No Brasil, estima-se que 2,5 mil famlias eduquem os filhos fora da escola. Veja quais so os pases com mais estudantes caseiros:
EUA 2 milhes
FRICA DO SUL 150 mil
RSSIA 70 a 100 mil
REINO UNIDO 20 a 100 mil
CANAD 80 a 95 mil
FRANA 12 a 23 mil


4#4 O SENHOR DOS MSSEIS
A tecnologia por trs de armamentos inteligentes  uma das mais complexas do mundo. E foi dominada pelo Brasil. Conhea o engenheiro que desde a dcada de 1980 produz conhecimento de ponta para a indstria de guerra brasileira. 
REPORTAGEM Camila Almeida

     "QUER UM CAF?", convida Wagner Campos do Amaral quando entro em sua sala. Com a caneca branca a tira colo, me guia at a copa. Um bigode preto estampado na borda da caneca se sobrepe ao seu, amarelado, a cada gole. Adereo divertido que o veste como um disfarce, ocultando a mente focada em projteis de alta destruio. O engenheiro de 57 anos  fabricante de msseis, armas mortferas que nem precisam de comando: sua programao  to refinada que eles perseguem sozinhos o alvo a exterminar. 
     Quando Wagner entrou para essa indstria, na dcada de 1980, o Brasil ainda no tinha conseguido fabricar nenhum armamento inteligente. Hoje, estamos entre as potncias do mundo que dominam essa tecnologia  e a quantidade de msseis do nosso arsenal  segredo de Estado. Divulgar um nmero como esse pode colocar em risco a segurana do Pas inteiro, nos deixando declaradamente vulnerveis frente a naes com maior poder de fogo. Nos limitamos a saber que a Odebrecht, que agora ataca no mercado de guerra, produz at cinco msseis por ms. O know how veio com a compra da Mectron, em 2011, empresa especializada em tecnologia aeroespacial. Fooi fundada por Wagner e mais quatro scios-engenheiros: Rogrio Salvador, Azhaury Cunha, Carlos Alberto Carvalho, que assumiram cargos de direo na nova empresa, alm de Ricardo Zanetta. 
     Falar de nmeros  perigoso, mas se exibir com os avanos  negcio. Posiciona o Brasil como gerador de inovao e nos torna competitivos num mercado em que conhecimento, de fato,  poder. Apesar de no sermos um pas de guerra, o mundo est de olho nos nossos armamentos. Exportamos para o Paquisto desde 2008. E no para por a. "Temos outros pases interessados, em negociao", adianta Andr Paran, diretor de comunicao da Odebrecht Defesa e Tecnologia. 
     Para a exposio de novas criaes e ideias, no entanto,  preciso ser cauteloso. Notcias criam presso e no conseguir entregar a tecnologia prometida dentro do prazo faz a credibilidade afundar. De quebra, o spoiler ainda ajuda o inimigo. "Se a gente d bandeira antes da hora, corre o risco de ser copiado por algum mais gil e termina sendo passado para trs", alerta. J aconteceu, inclusive. Os Estados Unidos lanaram uma bomba com base numa tecnologia divulgada pela Mectron numa feira, e que a empresa no deu conta de desenvolver. Por isso, Wagner Amaral prefere assumir um "perfil baixo", como ele mesmo define, e ser o mais discreto possvel em relao aos projetos que desenvolve. 

MATEMTICA DA DESTRUIO 
     Entre 2013 e 2014, 5 mil msseis cortaram os cus paquistaneses determinados a destruir seus alvos, marcados em solo afego. Uma chuva mortal que matou talibs, alm de homens, mulheres e crianas que calharam de estar no caminho. A tenso entre os dois pases se intensificou quando foi declarada a Guerra do Afeganisto, em 2001, aps o ataque s Torres Gmeas. O Paquisto passou a ser um aliado dos Estados Unidos na luta que exigia a cabea de Osama Bin Laden. No final de 2008, a Mectron passou a fornecer msseis para as tropas paquistanesas. Foram vendidos cem msseis antirradiao de uma vez, por mais de US$ 100 milhes. No ano seguinte, j se negociava a venda de mais uma fornada, dessa vez de msseis MAA-iB, para combate entre aeronaves. No faltam clusulas que exigem sigilo. 
     O mssil antirradiao encomendado foi o MAR-1. A arma tem a funo de destruir os radares inimigos, permitindo que as aeronaves de guerra entrem no territrio sem serem percebidas. So 90 quilos de explosivo, que liberam centenas de esferas de ao ao identificar seu alvo. A empresa tambm produz msseis de quinta gerao, como o A-Darter, desenvolvido em parceria com a frica do Sul. Ele  capaz de realizar manobras extremas em sua corrida contra caas supersnicos, trs vezes mais velozes que o som. Tambm sabem diferenciar aeronaves inimigas de iscas, que so como bolas de fogo lanadas para despistar os msseis. 
     Mas um dos projetos que mais garante visibilidade ao Brasil, hoje,  o submarino nuclear, movido a um reator de urnio. A tecnologia permite que a embarcao no precise subir at a superfcie para oxigenar o motor, momento em que fica vulnervel. O submarino est previsto para 2025 e, quando ficar pronto, vai incluir o Brasil na elite de potncias navais que produziram submarinos desse tipo, junto com Estados Unidos, Rssia, Reino Unido, Frana, China e ndia. 

GOSTO PELO DESAFIO 
     O interesse pela tecnologia e pelas armas j veio de criana. O pequeno Wagner, criado em Pouso Alegre, interior de Minas, queria era detonar. "Gastava todo dinheiro que ganhava com plvora". Comprava rojes, juntava latas de leo, derretia chumbo e confeccionava asas em moldes esculpidos em tijolos. No final, tinha foguetes. "Eles nunca voavam muito longe. Eram pesados. Por sorte, nunca explodimos nada", lembra. 
     Aos 14 anos, saiu de casa para seguir a carreira militar na Escola Preparatria de Cadetes do Exrcito, em Campinas. A faculdade tambm foi militar: no Instituto Tecnolgico da Aeronutica (ITA), em So Jos dos Campos, onde vive desde ento. Cursou engenharia aeronutica e se especializou em aerodinmica. Aos 22, j era professor do instituto, e foi dando uma aula sobre mecanismos de controle de voo que se interessou por msseis. Tentou explicar como funcionava um rolleron, uma pea de metal que, ao rodar como um catavento, d estabilidade ao armamento. "Ningum entendeu nada na aula, nem eu", diz. Pronto, estava imposto o desafio - estmulo que o move em tudo na vida. 
     Quando era pequeno, seu livro preferido era O Homem que Calculava, de Malba Tahan. Parava de ler para tentar decifrar sozinho as charadas e s depois continuava. Mas s pode competir assim, consigo mesmo, porque no sabe perder. "Parei de jogar baralho. Buraco, truco, dava muita confuso. Minha mulher me proibiu de jogar com as crianas, para no me deixar roubar delas", admite. Com a esposa Gisela disputa at a data do aniversrio de casamento. "Ela queria se casar no dia 5 de janeiro de 1985. Ento, eu sugeri: 'por que a gente no se casa antes no civil, dia 28 de dezembro?  at melhor, na cerimnia a gente se livra da papelada", conta. Se casaram duas vezes. O motivo da antecipao? Ele no queria perder o desconto do imposto de renda. 

ENGENHARIA DE GUERRA 
     No caminho para o almoo, a fila para a feijoada estava do lado de fora do restaurante. Desistimos. Para ele, melhor assim. "Feijoada tem muita protena. Fico com crise de gota e ela ataca bem no meu joanete", conta Wagner,  apontando para o dedo do p. Tambm sofre de insnia. E de daltonismo, assim como sua me, seu pai, e uns cinco colegas de trabalho. Comprou um par de culos antidaltonismo pela internet, de um site americano. Uma penca de homens correu para testar a novidade. Todos se frustraram. Nos semforos, Wagner no diferencia vermelho e amarelo. Nada que o impea de desfilar, em dias de passeio, com seu Maverick "laranja, abbora, sei l como vocs chamam aquela cor". Para ser aceito no ITA, falsificou um atestado. Tirando que queimou uns equipamentos por no conseguir encaixar componentes coloridos nas entradas correspondentes, conseguiu se virar bem. 
     No demorou muito para que o desafio do mssil se concretizasse em trabalho. Em 1983, Wagner passou a fazer parte de um projeto especial da DF Vasconcelos, empresa especializada em sistemas ticos complexos, como miras e sistemas de pontaria para avies. Ele tinha 25 anos e a incumbncia de fazer o primeiro mssil brasileiro, o MAA-1, batizado de Piranha. Mas o perodo era de crise na economia, marcada pela inflao exorbitante, e o projeto acabou passando pelas mos de vrias empresas. Quase todas que se envolveram com o projeto faliram. 
     Wagner e seus scios trabalharam em praticamente todas elas. Com o setor blico destrudo pela crise, migraram para o Iraque em 1990, onde passaram um ano estudando msseis de vrios tipos e nacionalidades. Voltaram com a engenharia avanada e, mesmo num cenrio econmico difcil, fundaram a Mectron. Wagner at pensou em montar uma fbrica de brinquedos, mas percebeu que, cedo ou tarde, o Brasil precisaria retomar os investimentos em defesa. Graas  iniciativa, o Piranha se tornou realidade, em 1996. 
     A ambio de conseguir desenvolver tecnologia desse nvel tambm. "Ningum te ensina a fazer um mssil. Ou voc aprende sozinho, ou vai viver dependente de outros pases", aponta Wagner. E ele ainda quer mais. Sonha em produzir um mssil hipersnico, com velocidade cinco vezes maior que a do som. Fascinado pela engenharia, chega a se esquecer do poder destrutivo do que fabrica. Pergunto se algum mssil dele j havia sido disparado em um conflito brasileiro. "S em testes e treinamentos. Em conflito no, infelizmente", solta, talvez pensando que no sabe se o mssil funcionaria num momento decisivo. "Ou felizmente, n?", corrige, lembrando que sabe o estrago que faria. 


4#5 CHUPA, TERRA
Esta aqui no  a Terra. Trata-se de um planeta bem melhor que o nosso. Pois : sempre pensamos que o melhor tipo de astro para abrigar vida era este aqui debaixo dos seus ps. Mas no: alguns astrnomos imaginam que estamos enganados. Redondamente.
REPORTAGEM Salvador Nogueira
EDIO Alexandre Versignassi

     EM ALGUNS LUGARES DISTANTES, podem existir planetas to cheios de vida que fariam os melhores parasos da Terra parecerem inspitos como um deserto. Eles seriam parte de uma recm-catalogada categoria de planetas, a dos "super-habitveis", ou seja, bem melhores para a vida que o nosso.  srio. O conceito foi publicado pela primeira vez no peridico cientfico Astrobiology, em 2014, por obra de Ren Heller, da Universidade McMaster, no Canad, e John Armstrong, da Webert, uma universidade americana. E olha que nem foi to difcil achar possibilidades atraentes. 
     A primeira delas tem a ver com a expectativa de vida de um planeta. A Terra  praticamente um rockstar csmico: um astro de vida intensa, mas que deve morrer jovem. Nosso planeta nasceu 4,6 bilhes de anos atrs, mas as primeiras centenas de milhes de anos foram bem turbulentas, com frequentes impactos de asteroides rotineiramente derretendo toda a superfcie. Assim que as coisas se acalmaram, h 3,8 bilhes de anos, imediatamente apareceram as primeiras formas de vida, como os registros fsseis nos mostram. A histria biolgica do nosso planeta, enfim, faz parecer que foi tudo fcil. O segredo, para os cientistas, foi a presena de gua em estado lquido. E isso, por sua vez, s foi possvel porque a Terra est na distncia certa do Sol, nem muito perto, nem muito longe. Dizemos que ela est na zona habitvel do sistema planetrio. 
     A alegria, contudo, tem data para acabar. Conforme envelhece, o Sol paulatinamente aumenta seu nvel de emisso de radiao. O que quer dizer que a zona habitvel est gradativamente se deslocando para mais longe. E em mais 1 bilho de anos, aproximadamente, a Terra cair fora dela. O resultado ser a evaporao completa dos oceanos e um efeito estufa descontrolado,  moda daquele que faz Vnus bater nos 400C. Nosso planetinha quase perfeito logo ir se tornar um mundo completamente hostil  vida. 
     Tudo culpa do Sol, que  uma estrela do tipo an amarela. Mas h estrelas bem menos propensas a morrer cedo: as ans vermelhas e as laranja, um pouco menos enormes que ele. Quanto menor  uma estrela, mais tempo ela vive, e mais devagar sua temperatura aumenta. S tem uma coisa: quanto menor for a estrela, mais prxima dela  a tal zona habitvel. Para as ans vermelhas, com at 60% da massa solar, isso pode ser um problema. Planetas na regio certa estariam to perto dela que provavelmente estariam gravitacionalmente travados, mantendo o mesmo lado voltado para sua estrela. J as ans laranja, com massa entre 60% e 90% da solar, vivem at trs vezes mais que o Sol e mantm suas zonas habitveis a uma distncia civilizada, evitando a trava gravitacional. 
     Planetas similares  Terra em torno de estrelas ans laranja poderiam, portanto, passar mais tempo na zona habitvel. Por aqui, o tempo foi um fator essencial no aumento gradual da biodiversidade. Ento podemos supor que mundos em torno de ans laranja mais velhas que o Sol podem j ter atingido um status de super-habitabilidade. Ou mais do que isso. Talvez o maior exerccio de imaginao sobre vida extraterrestre tenha sido o Solaris, filme russo de 1972 que ganhou um remake americano em 2002. Trata-se de um "planeta consciente", como se ele todo tivesse evoludo por zilhes de anos at se tornar um crebro gigante. Exagero? Sem dvida. Mas se algo assim existir de fato, talvez esteja na rbita de uma an laranja. 
     E pelo menos um desses provveis planetas ancies pode estar mais perto do que voc imagina. "Alfa Centauri B, que junto com Alfa A e Alfa C formam o grupo de estrelas mais prximo do Sistema Solar,  uma an laranja. Logo, trata-se de alvo ideal para buscas por um mundo super-habitvel", afirma Heller. Heller e Armstrong tambm lembram que alguns fatores aparentemente importantes para a manuteno da habitabilidade na Terra podem ser mais incrementados em outros mundos. Eles citam a atividade tectnica, que produz a reciclagem constante do carbono entre a superfcie e o interior do planeta, e a existncia de um campo magntico, que protege nosso mundo de radiao csmica perigosa para a vida. Em ambos os casos, planetas ligeiramente maiores, com at 150% do dimetro da Terra, parecem se manter mais geologicamente ativos e magnetizados por mais tempo. Ento  bem possvel que alguns desses planetas rochosos enormes, que os astrnomos chamam de "superterras", sejam melhores para a vida que o nosso prprio mundo. 

"ILHA/ILH DO AMOR..." 
     E tem mais. Com toda probabilidade, planetas ligeiramente maiores que o nosso conseguiro agarrar uma atmosfera tambm um pouco mais densa. Mais vento, e as montanhas se aplainam de forma mais efetiva. Um terreno mais regular em escala global pode levar um planeta que tem grandes continentes e oceanos a se transformar num mundo-arquiplago, em que a rea terrestre total  basicamente a mesma, mas distribuda em pedaos muito menores e de forma mais homognea pelo globo. 
     Na Terra, sabe-se que ilhas so motores de acelerao da biodiversidade. Ao isolarem a vida geograficamente, elas reduzem o tamanho das populaes de bichos e fazem com que eles evoluam mais depressa, se diferenciando mais rapidamente. Ento, um planeta-arquiplago tem todas as condies de ser super-habitvel. Poderia deixar o nosso mundo no chinelo nesse quesito e, ainda por cima, teria muito mais praia. 
     "Tomados em conjunto, todos esses pensamentos sobre as caractersticas importantes para a habitabilidade sugerem que mundos super-habitveis so  ligeiramente maiores que a Terra e tm estrelas-me um pouco menores e menos brilhantes que o Sol", diz Heller. "Se estiver correta, essa concluso  empolgante, porque, a distncias interestelares, superterras orbitando estrelas pequenas so mais fceis de detectar e estudar que gmeos do nosso sistema Terra-Sol. At agora, as estatsticas das pesquisas de exoplanetas sugerem que superterras em torno de estrelas menores so substancialmente mais abundantes em toda a galxia que anlogos da Terra e do Sol. Os astrnomos parecem ter muito mais lugares intrigantes para a busca por vida do que antes se pensava." 
     Por fim, precisamos nos lembrar que temos o vis de procurar vida em planetas porque ns mesmos nascemos em um. Mas Heller nos lembra de que talvez luas possam ser um lugar ainda melhor para a biologia. 
     Imagine um planeta gigante gasoso, como Jpiter ou Saturno, s que localizado na zona habitvel de uma estrela. Agora pense numa lua de grande porte - talvez do tamanho de Marte ou mesmo da Terra - em torno do grando. Essa lua-planeta teria  sua disposio mltiplas fontes de energia: alm da radiao vinda da estrela, ela ainda receberia a luz e o calor rebatidos pelo planeta gigante. Mais: a gravidade do gigante aqueceria a parte interna dessa lua, criando mais condies para a vida em guas profundas, por exemplo. Com tantas fontes de energia, a probabilidade  que surjam mais hbitats capazes de abrigar vida do que existem na Terra. 
     Claro, at agora, esses mundos super-habitveis existem somente na nossa imaginao. Mas a prxima gerao de satlites dever sair  procura deles furiosamente. A Nasa pretende lanar, em 2017, o telescpio espacial Tess (Satlite de Pesquisa de Trnsitos de Exoplanetas, em ingls), e ele deve encontrar centenas de superterras em torno de estrelas prximas - alvos ideais para outro equipamento, ainda mais poderoso: o Telescpio Espacial James Webb, que deve ir ao espao em 2018. Com ele, ser possvel saber a composio dos gases da atmosfera desses mundos. Talvez ao longo da prxima dcada ele consiga identificar pelo menos alguns exemplares de planetas super-habitveis. O melhor ainda est por vir. 


4#6 HISTRIA  LAMPIO, HERI OU VILO DO SERTO
Para uns, um dolo. Para outros, assassino. Lampio, uma das figuras mais misteriosas da histria do Brasil, passou a vida sendo temido e idolatrado pelas pessoas que aterrorizava e amparava. Conhea aqui sua trajetria.
REPORTAGEM Lvia Aguiar
EDIO Karin Hueck

O aplido Lampio decorre da facilidade que Virgulino tinha no manejo do rifle, que, de tanto atirar, mais parecia um candeeiro aceso nas escuras noites da caatinga.
Cicinato Ferreira Neto, bigrafo do cangaceiro.

1- As roupas eram espalhafatosas, com chapus de couro (ou feltro)' e coletes com moedas e medalhas de ouro. 
2- Ele usava uma jabiraca no pescoo - leno de seda preso por anis de ouro, usado para secar o suor e coar a gua impura do serto.  
3- Lampio levava  oraes presas no corpo, dentro de saquinhos, que tinham a funo de proteg-lo. 

MORTE E VIDA VIRGULINA

1897
LAMPARINA - Virgulino Ferreira da Silva nasceu em 7 de julho de 1897 (de acordo com o registro civil) ou em 4 de junho de 1898 (a certido de batismo) em Serra Vermelha, Pernambuco.

1913
BURRO DE CARGA -  Seu pai era almocreve: levava farinha, rapadura, peles de bode e algodo de um lugar a outro. Lampio comeou a trabalhar e a viajar com ele e, assim, pde aprender a geografia e os esconderijos da caatinga. 

1921
A MORTE DO PAI - Seu pai entrou em uma briga feia com os vizinhos, os Alves de Barros, que foi parar na polcia. Alguns meses depois, o pai acabou morto por oficiais. Foi quando o rapaz resolveu entrar para o cangao, no bando de Sinh Pereira. 

1922
NO CANGAO -  Como era gil, inteligente (estudou poucos anos, mas sabia ler e escrever com fluncia) e bom de mira, Lampio logo se tornou o lder do bando em 1922. Uma de suas primeiras aes foi matar o informante que entregou seu pai  polcia. 
SEM D -  O maior assalto da histria do cangao at ento foi contra a Baronesa de gua Branca, uma senhora de mais de 90 anos. Lampio exigiu dinheiro da idosa em troca de proteo, mas ela se negou a pagar: disse que ia pagar para mat-lo. 

1- Os cangaceiros entraram disfarados em gua Branca: se aproveitaram do costume do serto de levar os mortos dentro de redes, e esconderam ali as armas e munies.
2- Assim conseguiram invadir a delegacia, prender os policiais, libertar os presidirios e saquear toda a cidade.
3- Ao final. Lampio forou a baronesa a passear de braos dados com ele pela cidade. Ele usou algumas das suas joias e moedas at o fim da vida.

AMIGO QUANDO CONVM
Lampio no s atacava os ricos e poderosos - s vezes se amigava com eles tambm. Isso fez com que tivesse alianas em grande parte das cidades do Nordeste. Para os amigos, deixava de agir em certos territrios, fornecia homens quando necessrio, vingava-se de seus inimigos e fazia outros servios. O mesmo valia para os sertanejos comuns, os coiteiros. Eles davam abrigo, armas, mantimentos e informaes sobre a localizao das volantes, e recebiam proteo em troca. Entre cangaceiros e policiais igualmente violentos, os agricultores se viam divididos - e, por isso, Lampio era considerado por muitos um heri. 

1923
TOMA L D C - Marcolino Diniz, um poderoso aliado do cangaceiro, matou um juiz de paz em Pernambuco e foi preso. O bando de Lampio invadiu a cidade e libertou Marcolino. Em troca, meses depois, quando o lder se machucou, a famlia Diniz cuidou dele e o escondeu da polcia. 

1924
A PRIMEIRA "MORTE" - Como tinha o hbito de intercalar grandes assaltos com sumios prolongados para no ser preso, Lampio foi anunciado como morto diversas vezes. A primeira, em 1924. 

1925
ADEUS AO IRMO - O bando tinha 45 cangaceiros e entrou em diversos conflitos sangrentos com as polcias volantes. Seu irmo Livino acabou morto. Para se vingar, Lampio resolveu atacar com violncia cidades da Paraba. 

1926
SEGUNDA "MORTE" - No incio do ano correu mais uma vez o boato de que Lampio estaria morto. 

1926
HOMEM DE F - Lampio tinha adorao a Padre Ccero e se encontrou com o religioso em Juazeiro. O Padim pediu que ele largasse o cangao - sem sucesso. Lampio costumava respeitar os homens religiosos: at desistiu de atacar cidades e fazendas por persuaso de padres e nunca invadiu uma igreja. Ele e seu bando levavam oraes escritas e antes dos embates se reuniam para rezar. Entre as preces mais comuns estavam as de "corpo fechado". Lampio jejuava na Semana Santa e s vezes ia  missa. 

COLUNA PRESTES -  Em 1926, o grupo de Lampio entrou em tiroteio contra a Coluna Prestes - acharam que era a polcia. Alguns meses depois, o governo do Cear o convidou a Juazeiro para negociar um possvel combate  Coluna com auxlio estatal. 

1- Em Juazeiro, Lampio recebeu uniformes, fuzis, munies e at patentes do Exrcito (at hoje, h controvrsias se eram verdadeiras ou forjadas). 
2- Lampio foi tratado como celebridade por l, exibindo riqueza e agindo de modo espalhafatoso, distribuindo esmolas e presentes. 

1926
TERCEIRA "MORTE" - (OUTUBRO)

1926
SEQUESTRO LUCRATIVO - No final do ano, Lampio sequestrou 17 funcionrios da Souza Cruz e da Standard Oil Company, exigindo 16 contos (em torno de R$ 7 mil) pela sua libertao. A empresa de tabaco pagou o resgate, mas a petrolfera no, o que levou  luta entre os cangaceiros e 300 policiais. Lampio venceu.

"As espingardas vai cantar pela cantiga velha", depois de receber a patente de capito no Cear, quando soube que as volantes continuariam perseguindo-o.

1927
QUARTA "MORTE" - (MARO)

1927
A QUEDA
Depois que o potiguar Massilon entrou para o bando, Lampio decidiu atacar Mossor. O plano era ousado, j que o grupo no tinha estado no Rio Grande do Norte e eles desconheciam o terreno. Ao contrrio do resto do serto, a geografia por l era plana. 

1- Com cavalos. Lampio fez refns pelo caminho e pediu 400 contos de ris para no invadir a cidade.
2- Os mossoroenses negaram e Lampio invadiu a cidade. Mas as ruas foram fortemente defendidas e Lampio e seu grupo bateram em retirada aps duas horas.

RESISTNCIA - Depois da derrota, o grupo foi encurralado pela polcia e sofreu baixas - perdeu 13 cavalos e 12 rifles. Famintos, os cangaceiros viajaram a p pela caatinga at serem cercados por 400 policiais. O bando tinha apenas 50 homens, mas conseguiu fugir. 

MARIA BONITA - Lampio foi o primeiro a introduzir mulheres no cangao, o que era considerado fraqueza (acreditava-se que fazer sexo comprometia o "corpo fechado"). Quando Lampio se juntou a Maria Bonita na Bahia, seus homens tambm passaram a levar as companheiras. Ela era casada, mas largou o marido. Algumas mulheres se tornaram combatentes, outras cuidavam do acampamento. Os filhos gerados morriam de doenas ou eram entregues a aliados. 

REI DO SERTO - Lampio se aproveitava do descaso pelo serto para atuar. Em 1926, ele enviou uma carta ao presidente de Pernambuco propondo uma diviso: a rea sertaneja at Arcoverde passaria a ser governada por Lampio e a faixa at o mar seria do governo oficial. Ela obviamente foi ignorada.

1- Para dificultar o acesso ao serto, o grupo costumava cortar os fios de telgrafos e de luz. 
2- Lampio impedia tambm o avano das estradas. Em 1929, ele interrompeu a construo de uma estrada que passaria pelo Raso da Catarina, seu refgio predileto. Em 1932, ele executou nove operrios na Bahia. 

1928
MINIBANDO -  O ataque de Mossor marcou o comeo do fim do bando, onde eles perderam a fama de invulnerabilidade. At o final do ano, o grupo quase desapareceu: ficou com apenas 16 a 20 homens. Massilon desertou o bando. 

1929
QUINTA MORTE - (JANEIRO)

1929
VAI E VEM -  O grupo foi a Capela (SE), onde resolveu se divertir. Lampio visitou o cinema, o bordel, a estao ferroviria e casas comerciais. Depois foi  Bahia, onde fez ataques violentos. Mataram dez pessoas na Fazenda Almcega e torturaram e castraram seus inimigos.

1930
FAMA E RIQUEZA -  Maria Bonita entrou no bando em 1929 e, em 1930, Lampio apareceu no jornal The New York Times pela primeira vez. Virou assunto de documentrio tambm: Lampio, Fera do Nordeste. 

"Diga a ele que no tenho medo de boi velhaco, quanto mais de bezerra", Insulto ao Capito Bezerra, comandante de volantes.

AS VOLANTES - Eram as foras policiais itinerantes que combatiam os cangaceiros. Ambos grupos eram muito parecidos: tinham as mesmas roupas, armas, tticas e atitudes diante dos sertanejos, que tratavam com crueldade - a nica diferena  que as volantes agiam em nome da lei. Eram formadas por homens que roubavam os sertanejos comuns e que extorquiam os cangaceiros em troca de conivncia ou proteo. 

1930
SEXTA MORTE - (OUTUBRO)

1930
INIMIGO N 1 -  Depois de 1930, Lampio comeou a ser visto como inimigo do governo federal, de Getlio. Criaram-se aes coordenadas de polcias volantes dos Estados, os cachimbos (grupos de civis) e foras federais. 

1932
STIMA MORTE - (AGOSTO)

1932
SECA E FUGA -  Em 1932, houve uma terrvel seca no serto. O governo da Bahia decidiu evacuar a rea para deixar Lampio sem aliados. Foras policiais desalojaram 12 mil sertanejos, enviados para as grandes cidades. Eles abandonaram terras, animais, lavouras, tudo. Mas Lampio no foi abalado. 

1932
FILHOTA - Maria Bonita deu  luz a filha do casal, Expedita, no fim do ano, quando estavam em Sergipe - e a entregou a um casal de amigos no Estado. 

1934
UM COPO DE VENENO -  O grupo sofreu uma tentativa de envenenamento na Bahia. Uma volante obrigou um de seus coiteiros a colocar veneno na comida que ofereceriam aos cangaceiros, mas eles nem provaram os alimentos, alegando que j tinham comido. 

1937
O COMEO DO FIM -  Em 1937, Lampio andava irritado com a perseguio das volantes. Seu corpo estava danificado pelo sol, pela seca, as ms condies de higiene, os ferimentos mal curados e talvez at a tuberculose. Desde que havia ferido o olho direito num espinho, sua viso o afligia.

"TER DOIS OLHOS  LUXO", ao final da vida, tinha apenas um olho funcionando normalmente.

1938
OITAVA MORTE - (JANEIRO)

1938
MORTE REPENTINA - H duas verses para a morte de Lampio. Na primeira, o lder era surpreendido pela polcia e morto quase sem resistncia - o que  pouco provvel, j que o cangaceiro  conhecido pelos embates duros. Abaixo, a segunda - e mais provvel - verso de sua morte.

1- O tenente Joo Bezerra torturou os coiteiros Pedro de Cndido e Durval Rosa para que eles entregassem a localizao do bando - e envenenassem a comida que serviriam.
2- Apesar de alguns cangaceiros terem notado que as garrafas de bebida estavam com as tampas furadas, alguns tomaram o veneno. Lampio e Maria Bonita j estariam mortos quando a polcia chegou.
3- S ento a polcia atacou o grupo e comeou um tiroteio de 15 minutos. S um policial foi morto. A hiptese do envenenamento faz sentido porque, dias depois, urubus que se alimentaram dos cadveres dos cangaceiros foram encontrados mortos tambm.
4- Os soldados pilharam o esconderijo, levando ouro, dinheiro e joias dos mortos. No inventrio oficial, diz-se que no foram encontradas peas de valor com os cangaceiros, o que indica corrupo.

SEM P NEM CABEA
Onze cangaceiros morreram na grota de Angico, um lugar considerado uma "ratoeira" por outros cangaceiros. Suas cabeas foram cortadas e fotografadas pelos soldados para comprovar a derrota do famoso lder. Os policiais fizeram um desfile, com as cabeas dentro de latas de querosene, por diversas cidades do Nordeste, inclusive Macei e Piranhas. 
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5# ORCULO junho 2015

O SENHOR DE TODAS AS RESPOSTAS
EDIO TIAGO JOKURA

Orculo que est no cu ( o que dizem): escrevo de dentro de um avio que ainda no decolou enquanto uma suave e autoritria voz me instrui a manter o celular desligado durante todo o voo. Por que as companhias no liberam o uso de telefones?  
E PARA QUE SERVE O MODO AVIO? - Juliana Rodrigues do Nascimento,
Rio de Janeiro, RJ
NEM TANTO AO CU, nem tanto a terra ( o que dizem), Juliana. O modo avio serve para diminuir as interferncias eletromagnticas que o celular pode causar nos aparelhos de navegao dos avies - o que  muito improvvel. Mas ele no inibe totalmente potenciais efeitos nefastos, como o desligamento do piloto automtico sem que o comandante perceba. Algumas aeronaves j esto adaptadas ao uso de dispositivos mveis, mas outras ainda no. Por isso, h companhias que ainda probem todo e qualquer uso do celular por normas internas ou porque ainda no conseguiram autorizao da Agncia Nacional de Aviao Civil (ANAC) para fazer isso. No futuro, com aparelhos de navegao protegidos contra sinais eletromagnticos, as parafernlias digitais devem ser liberadas em todos os voos, inclusive com Wi-Fi a bordo. 

29 SUSPEITAS DE INTERFERNCIA causada por celular em avies comerciais foram identificadas em seis anos. Isso equivale a um caso a cada 280 mil voos.

, gabarito universal e das mltiplas escolhas,  prova de tudo: por que chamam os calouros universitrios de bixos? - Jofh Neves, Camaqu, RS 
Tem uma pegadinha a, bicho: "vestibular" e "estrebaria" derivam da mesma palavra em latim: vestbulum, que significa "pea de entrada que d passagem a outras partes da casa". Assim como na Roma antiga os bichos passavam por um corredor minsculo e entravam no vestibulum, os calouros passam pelo aperto do vestibular para entrar na faculdade. Em algum momento, das dcadas 1960 e 1970, devido  popularizao do termo para tratar pessoas ntimas, o "ch" foi sendo substitudo pelo "x" e permaneceu no meio universitrio.

P PUM
Saudaes ao que mantm nossas mentes ss em corpos insanos. Quantos leitos tem o maior hospital do mundo? - Brbara Latimberae, Belo Horizonte, HG 
Sete mil - capacidade do hospital de Zhengzhou, China.

NMERO INCRVEL
92,5 milhes de barris por dia foi a mdia de consumo de petrleo no mundo em 2014.
Quanto de petrleo ainda resta na Terra? E at quando ele deve durar? - Antonio Carlos Falco Rosas, Salvador, BA
AINDA H cerca de 1,3 trilho de barris nas principais reservas conhecidas - isso deve durar entre 40 e 50 anos, considerando os nveis de consumo atuais. Mas a previso  que, at 2040, o consumo diminua para 20% do que  usado hoje, prolongando o estoque. Segundo uma previso de 1981, o estoque deveria ter acabado em 2013. S que, no meio do caminho, descobriu-se que as reservas mundiais eram um trilho de barris maiores do que o estimado. Ou seja: tudo o que os especialistas calculam hoje pode estar errado 

UM DADO RELEVANTE SEM NENHUMA LIGAO 
92,5 milhes de dlares anuais  o patrocnio em moeda estrangeira da CBF.

QUER QUE EU DESENHE?
O que define se uma via  rua ou avenida? - Carolina Galvo Sobrinho, So Paulo. SP 
Depende da cidade. Segundo o dicionrio Houaiss, a avenida  mais ampla do que a rua e em geral  arborizada ou tem outras estruturas que a diferencia de uma rua. Mas, no Brasil, cada cidade define de um jeito. 

Se em 2005 eu tivesse notas de R$ 1, o que teria sido mais lucrativo: guard-las ou ter comprado dlares? - Andr Colabelli, Santo Andr, SP
Espero que tenhas guardado as verdinhas. Hoje, uma nota de R$ 1 vale uns R$ 5 entre colecionadores - lucro de R$ 4 descontando o valor da nota. Comprando dlares em 2005, conseguirias US$ 0,43 por cada real. Hoje, esses cents valeriam R$ 1,30, gerando um lucro de apenas R$ 0,30.

Quanto vale um real?
CDULA - Com assinaturas de Pedro S. Malan e Gustavo J.L. Loyola
VALOR - R$200

MOEDA ATUAL- Uma das faces homenageia os direitos humanos.
VALOR - R$ 70 a R$120

MOEDA ANTIGA  Moedas de 1994, sem a atual borda dourada.
VALOR R$ 5 a R$ 10

COMO SE DESENHAVAM MAPAS DE PASES E DE CONTINENTES SEM TECNOLOGIAS COMO FOTOGRAFIA, SATLITES E GPS? - Lvia dos Passos Rech, Lagoa Vermelha, RS 
MAPEAR ERA PRECISO muito antes das navegaes. Na Antiguidade, mesopotmios, egpcios e romanos mediam a natureza com rguas, trenas e outros mtodos, e faziam plantas de terrenos pequenos em placas de argila e papiros. Para mapas maiores, a ideia era parecida com a do Google Street View: rodear a ilha ou o continente e rabiscar o formato da costa no mapa, em tempo real. O uso da bssola, o conhecimento sobre a posio das estrelas e a conveno de longitude e de latitude forneciam coordenadas precisas. E, muito antes da internet, esses dados eram compartilhados entre os povos, evoluindo os mapas. O desenvolvimento da litografia e da impresso colorida no sculo 19 permitiu a produo de mapas coloridos parecidos com os atuais, traados eletronicamente. 

Prefiro perguntar sem bajulao: qual o limite de nacionalidades que algum pode ter? - Vanderson Setnarski, Irati, PR 
SIM, ME BAJULAM  TOA - mas eu gosto. Como voc  do Brasil - apesar da origem polonesa - no h limites: um brasileiro nato de me e pai estrangeiros pode requerer passaportes dos pases de origem paterno e materno e ter trs nacionalidades se for aprovado. Se os pais tambm tiverem trs nacionalidades, esse brasileiro pode ter at sete, e por a vai. J a nacionalidade derivada  em que a pessoa no tem ligao com o Estado com o qual quer se vincular   limitada. Para ter um passaporte gringo sem ter nascido fora do Brasil e sem ter familiares diretos relacionados ao territrio envolvido, o requerente tem que abrir mo da cidadania brasileira. Isso, claro, se o outro pas aceit-lo como cidado. 

Por que, quando tomo algo gelado, d uma dor aguda na cabea? - Igor Medeiros, Joo Pessoa, PB 
PARABNS! Congelar o crebro  uma predisposio gentica: nem todo mundo sente essa dor. Ela  resultado do estmulo das terminaes nervosas do cu da boca, mas s quem tem certos genes sente hiperestmulo ao entrar em contato com o gelado intenso (na boca e em outra parte do corpo), e isso  percebido como dor. O porqu dessa reao exagerada ningum sabe, muito menos eu, que nunca tomei sorvete. 

No posso olhar para o meu noivo que d siricutico para apertar o rosto dele. Por que  prazeroso espremer cravos e espinhas? - Luciana Carvalho, So Paulo, SP 
PORQUE LIBERA ENDORFINA, o hormnio do relaxamento, e resgata o grooming (catao, em portugus), comportamento ancestral dos primatas. Vrios mamferos se furungam atrs de carrapatos. Humanos, por sua vez, apertam a acne por higiene e para se embelezar e atrair o sexo oposto. A espremeo tambm tem funo social quando envolve ajuda mtua. Essa nojenta cooperao refora as relaes sociais e o afeto entre familiares, liberando a endorfina nos envolvidos. Por isso, mesmo que os apertos sejam doloridos, so interpretados como carinho. 

Saboreie a dvida deste servo faminto: na natureza h alimentos doces, azedos e amargos. Mas e salgados, onde tem? - Denilson Guimares Tavares, Belford Roxo, RJ 
NO SIRI COM CIMBRA, a em Belford Roxo mesmo - procure pelos pastis de bacalhau, camaro ou siri. Na natureza, alimentos salgados tm quantidade de sdio acima da mdia, como algumas ervas (salsa, manjerico e organo), peixes e frutos do mar (crustceos, ostras etc). Pepinos e carnes tambm so classificados como salgados. Mas nesses itens o teor  bem suave, longe de ser comparado a alimentos preparados com sal de cozinha. 

Entidade que me conduz por conhecimentos duradouros e passageiros: e se eu no tiver dinheiro para o pedgio? - Kau Rodrigues. Taubat, SP 
CADA PEDGIO tem sua lei. Pode ser que disponibilizem uma mquina de carto, uma rea de espera para que algum venha em seu socorro e at que o mandem dar meia-volta. S no tente furar o bloqueio sem pagar: isso lhe custaria R$ 127,69 e renderia 5 pontos na carteira de motorista. 

PERGUNTE AO ORCULO
Escreva para superleitor@abril.com.br com assunto "Orculo" e mencione sua cidade e Estado.

CINCIA MALUCA
Por Carol Castro

RATOS FAZEM SERENATAS - Pesquisadores colocaram ratos em uma srie de situaes sociais diferentes. Com um programa de anlise de sons ultrassnicos, viram que machos, ao cheirar o xixi das fmeas, cantam mais alto e fazem canes mais complexas. E elas gostam: se aproximam e passam mais tempo perto deles. 
ORELHA DE ABANO DEIXA CRIANAS MAIS FOFAS - Voluntrios analisaram as fotos de 20 crianas aptas a fazer cirurgia para acabar com orelhas de abano - algumas imagens haviam sido modificadas para "normalizar" as orelhas. E descreveram como acreditavam ser a personalidade das crianas. Em mdia, os orelhudos pareciam mais fofos e inteligentes. 
CORAO DOS BAIXINHOS SOFRE MAIS - Pode ser culpa dos genes. Pesquisadores analisaram dados de 65 mil pessoas com doena arterial coronariana e 128 mil saudveis. Avaliaram tambm 180 marcas genticas relacionadas  altura. Uma pessoa com 6 cm a menos que outra tem risco 13,5% maior de ter a doena. 

LISTA
Quais os lugares mais chuvosos do planeta? - Francys Rodrigues, Embu das Artes, SP.
AMRICAS: Puerto Lpez de Micay, Colmbia. 13,4 m/ano
SIA: Mawsynram, ndia. 11,8 m/ano
OCEANIA: Cropp River, Nova Zelndia. 11,5 m/ano
FRICA: Ureca, Guin Equatorial. 10,4 m/ano
EUROPA: Mrdalsjkull, Islndia. 10 m/ano

ESTE MS NESTE PLANETA
Dia 2. EUA. DIA DO DONUT - Na 1 Guerra Mundial, um dos poucos alvios para soldados dos EUA era a distribuio de rosquinhas pelo Exrcito da Salvao. Para relembrar a boa ao, os americanos distribuem o doce de graa nesse dia.
Dias 6 e 7. 160 DLARES custa o ingresso para a CatCon, conferncia em Los Angeles que rene tudo sobre gatos: palestras, cursos e outros eventos.
Dia 7. ESPANHA. Salto do diabo - No El Colacho, em Castrillo de Murcia, espalham-se colches pelas ruas para as mes colocarem seus bebs. Depois, rapazes fantasiados de diabo saltam por cima das crianas para livr-los do mal.
Dia 9. INGLATERRA. Barcos de po - Misture muita gua, farinha e ovos e faa um cesto. Passe um verniz naval para impermeabilizar e est feita a corrida de barcos mais estranha o mundo: a Yorkshire Pudding Boat Race, disputada na pequena Brawby.

O POVO QUER SABER
A dvida que bombou no Google este ms
O QUE  SANPAKU?
EM JAPONS ANTIGO, significa "trs brancos". Atualmente, descreve algum em desequilbrio fsico, psicolgico ou mental para a medicina tradicional japonesa. O principal indcio est na vista. So trs partes brancas ao redor da ris: nas laterais e na parte inferior do globo ocular. Segundo a crena, a vida do sanpaku est ameaada por um trgico fim - como aconteceu com sanpakus famosos como Marilyn Monroe, John F. Kennedy e John Lennon, que at menciona a condio na cano Aisumasen. O japons George Ohsawa, autor que popularizou a macrobitica e a expresso sanpaku no Ocidente, indicava uma dieta rica em cereais integrais, legumes e frutas secas para atenuar os efeitos. A medicina ocidental, no entanto, ignora tudo isso. 

Desde criana sempre quis saber quem acende os postes das ruas... - Artur Diniz, Joo Pessoa, PB 
ERA UMA VEZ um sistema automtico de clulas fotoeltricas (sensveis  luz) feito para clarear sua vida noturna e, agora, sua dvida infantil. Quando o ambiente fica escuro, as lmpadas da rua acendem. A em Joo Pessoa, 38 funcionrios ajudam essa tecnologia a brilhar cuidando da manuteno dos postes. So 22 encarregados da iluminao convencional e 16 responsveis pela iluminao ornamental - de praas, praias e vias principais, cujos postes so mais altos. Todos chefiados pelo iluminado Herivalter. Pode agradec-lo. 

Qual foi o primeiro chefe de Estado eleito democraticamente? - Fernando Brning, Palhoa, SC 
TEMSTOCLES foi eleito arconte epnimo, o mais importante membro da Eclsia (assembleia de Atenas) em 493 a.C. A capital da Grcia  conhecida como bero da democracia direta, aquela em que todos votavam sobre as decises - quer dizer, nem todos: mulheres, estrangeiros, escravos e analfabetos no eram cidados. Essa primeira eleio da histria foi aberta somente a homens com mais de 18 anos, que tivessem prestado servio militar e fossem de famlias importantes na cidade. 

PROVRBIO DO MS
"Aniotowie pijanych na rkach swych nosza"
Anjos carregam bbados nos braos. - Esse trago de sabedoria polonesa sugere que h proteo do alto para quem fica alto. O lado ruim de acreditar nisso  beber inconsequentemente, confiando no amparo angelical. 


CONEXES
De Ricky Martin a George R. R. Martin
Por Fbio Morton

RICKY MARTIN - O cantor comeou aos 13, na boy band porto-riquenha Menudo. Saiu em 1989, passou uma dcada lanando discos em espanhol e fazendo pequenos papis nas TVs do Mxico e EUA, at a carreira decolar com Livin' La Vida Loca, de 1999. Em meio a isso, encontrou outra paixo. A... 
NDIA - Desde os anos 1990, Ricky visita o pas quase todo ano. Ele  fascinado pela espiritualidade oriental. Mas a ndia no contribuiu para a humanidade s em termos de f. L surgiram grandes avanos matemticos, como o sistema numrico moderno. E os matemticos de l tambm inventaram o... 
XADREZ - Reza a lenda que o criador do jogo props ser pago pela inveno com um gro de arroz na primeira casa do tabuleiro, dois na segunda, quatro na terceira e assim por diante. Era um truque: nem todo o arroz do mundo daria conta. Mas, sculos depois, muitos seriam pagos para jogar. Como... 
BOBBY FISCHER - Americano prodgio, derrotou um dos maiores jogadores do pas com 13 anos. Em 1972, destronou o campeo mundial, o sovitico Boris Spassky, e fez o xadrez virar mania nos EUA. Essa febre contagiou, entre tanta gente... 
GEORGE R. R. MARTIN -  Mestre enxadrista, o escritor organizava campeonatos. Isso deu a ele estabilidade financeira para desenvolver seu trabalho, que resultaria em Game of Thrones, publicado em 1996. George tem todo um lado B antes da fama, como Ricky Martin. 


MANUAL
Por Giselle Hirata
Quando um casal rompe  quase sempre a maior confuso. Para evitar essa situao, pergunto: COMO TERMINAR UM RELACIONAMENTO? - Sidnei Enriqui. So Jos dos Campos, SP
1- ENCARE O DESAFIO -  Esquea telefone, whatsapp e Facebook. O papo tem que ser cara a cara para demonstrar um mnimo de respeito pelo ex-companheiro. E, claro, assim voc no corre o risco de a pessoa no responder s mensagens ou desligar na sua cara. 
2- ESCOLHA O LOCAL -  Num espao pblico, porm reservado, vocs podem conversar tranquilos, sem interrupes e sem passar constrangimento - caso um dos dois caia em prantos ou faa escndalo. Evite lugares muito privativos para no ser seduzido. 
3- FIQUE FIRME -  Se a pessoa no aceitar sua deciso e implorar por uma segunda chance, mantenha o foco.  um favor que voc faz para no prolongar o sofrimento da pessoa. Se a insistncia continuar, pea desculpas, corte o papo e v embora. 
4- SUMA DO MAPA - No mantenha vnculos - isso vai evitar espionagem e perseguio. Desfaa a amizade nas redes sociais, no visite e nem atenda ligaes da ex-sogra, cunhada, melhor amigo ou amiga do ex etc. 
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6# MUNDO SUPER junho 2015
NOSSA REDE SOCIAL

SUPER VINTAGE
Vou ficar com saudades da borda vermelha, uma marca registrada h 28 anos. Mas como dizem: s temos saudades do que  ou foi bom! - Petuel Preda

No adianta juntar mestres do design para mudar algo que era excelente. Como assinante e f foi duro entender e gostar desse novo formato.  Murillo Varella


CORRUPO APROVADA 
As razes da corrupo e como combat-la (mai/15) explicou que todas as sociedades - no apenas as humanas - so corrompidas e que  possvel controlar esse problema. Por isso, foi aclamada pelos leitores.

 IMPORTANTE CRIAR REGRAS que sejam viveis para todos. Para que ningum se sinta "otrio" (como a SUPER expressou de maneira brilhante) por seguir algo que mais ningum segue,  preciso que todos estejam cientes das consequncias sociais de um ato corrupto. - Jefferson Ramirez 
POUCAS VEZES LI uma reportagem to bem escrita. A matria traz informaes relevantes e articula as diversas dimenses da corrupo. Gostei de saber como outros pases conseguiram superar esse cncer. - Marcos Rogrio de Souza 
EXCELENTE REPORTAGEM. Um exemplo de jornalismo aprofundado, inteligente, que respeita o raciocnio do leitor. Levarei para discutir com meus alunos. - Thelma de Carvalho 
NOTA 10 para o assunto da capa. No apenas mostraram o problema, mas propuseram solues. Poderiam lanar uma edio especial sobre o tema. - Jonas Novaes Torres 

EMBATE
Uma polmica, duas opinies.
J EXISTE PENA DE MORTE NO BRASIL, DA EDIO DE MAIO, GEROU MUITO DEBATE NO FACEBOOK
A POLCIA BRASILEIRA  uma das que mais matam no mundo, sendo comum assassinato e tortura de inocentes. A forja de flagrante  to frequente como os erros de conduta e de ao praticados pela polcia todos os dias. - Daniel de Souza
Quando a SUPER escreve "a polcia", generaliza, e isto  injusto. Procure nomes, culpados, classifique-os, mas no aponte o dedo para cidados que arriscam a vida pela sociedade. Maus profissionais existem em todos os setores. - Laerte Lee VIII

3 RECADOS DE MERDA 
1- Uma revista feito a SUPER tem que tocar em assuntos tabus, vencer a caretice. Continuem a trazer s claras as merdas do dia a dia. - Valria Bordin, sobre Estamos na merda porque nos recusamos a falar da merda (Essencial, mai/15)
2- Sempre leio a SUPER enquanto "fao merda" para achar que estou fazendo algo til durante este tempo. Agradeo ao Denis por falar nela com tanta limpeza. - Ronaldo Egitho 
3- Gostaria de registrar a excelente analogia sobre a merda, cruzando fatos reais com a hipocrisia coletiva e quase doentia em no enfrentarmos de frente nossos podres e feridas sociais. - Rodrigo Leme 

A SERVIO DA LEI
O texto O parasita mora ao lado, de Alexandre Carvalho, publicado na edio sobre psicopatas Mentes Perigosas (jul/2009), foi usado na Justia num caso trabalhista envolvendo uma funcionria psicopata que cometeu homicdio. A reportagem completa est em abr.ai/super-tst.

LEITORA DO MS
A EMANUELA, com 11 meses, j curte a SUPER. A av, Sandra Ferreira, acredita que seja pelo novo design: "ao me ver lendo, ela veio, pegou o exemplar e comeou a olhar. Comea pequena o interesse pela leitura. Esta  a 3 gerao a acompanhar a leitura da revista. Eu, minha filha e agora a neta."

CAD?
"Justo quando resolvo escrever para a SUPER, descubro que a seo de cartas dos leitores foi extinta!" - Thelma Guimares, que no encontrou esta seo ao folhear a nova SUPER, reformulada em maio. 

EXTERMINAMOS A HUMANIDADE 
Informamos que a peste bubnica matou cerca de 400 milhes de pessoas na Europa do sculo 14 (O co que virou santo, mai/15). Foi o maior genocdio j cometido pela SUPER: esse nmero equivale ao total da populao mundial da poca. Na verdade, a Peste matou cerca de 100 milhes.

TESTAMOS O APPLE WATCH
Nosso correspondente em Nova York, Pedro Burgos, responde dvidas sobre o relgio inteligente e o futuro da computao vestvel. Assista em abr.ai/iwatch

CHECKLIST
Este ms, no mundo SUPER
EDIO ESPECIAL
AS MATRIAS MAIS PREMIADAS
O melhor da histria da SUPER. R$ 14

DOSSI
VINHO
Tudo sobre a bebida mais amada. Sem enochatice. R$ 14

WEBSRIE
DEFINA FOFURA
"O que as crianas pensam" sobre temas complexos, como poltica e guerra. Toda quinta, at o fim do ms, no Facebook.

FOI MAL
 Em "O pavossauro" (Supernovas, mai/15) o termo correto seria ovirraptorossauros em vez de ovirraptossauros. 
 Em "Beber cerveja d dengue" (Cincia Maluca, mai/15), o ttulo deveria ser "Beber cerveja d malria". O mosquito usado na pesquisa era o transmissor da malria (do gnero Anopheles).
 A autora do livro Um Pas Sem Excelncias e Mordomias  Cludia Wallin (As razes da corrupo e como combat-la, mai/15). 
 O nome cientfico do periquito andino  Pyrrhura subandina (Supernovas, mai/15) 
 A helioterapia foi idealizada pelo grego Herdoto no sculo 5 a.C.(A polmica do Sol, abr/15).

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7# REALIDADE ALTERNATIVA junho 2015

7.314 CARACTERES DE LITERATURA

NA AVENIDA
Um conto de Daniel Galera

     O CAMINHO DO COLGIO at a casa em que viviam era percorrido em grande parte por uma avenida de pista dupla, com canteiro central e densamente arborizada nos dois lados. No vero, em determinados dias, cigarras escondidas nos galhos apitavam em unssono com um ardor que parecia capaz de trincar as janelas de vidro do automvel. Mas na maior parte dos casos ela escutava apenas o sussurro aveludado dos pneus rodando sobre o asfalto. Nas raras vezes em que outro automvel silencioso cruzava por eles, Milena lembrava que aquela avenida fora construda dcadas atrs para dar vazo ao trfego congestionado que ligava a zona sul da cidade ao centro e tentava imaginar o trovejar constante de dezenas de extintos motores a combusto acelerando e parando aos soluos, atrapalhando a conversa dos motoristas irritados. Avenidas congestionadas j tinham desaparecido quando Jonas nasceu. Milena as tinha visto na juventude, mas hoje em dia pensar nelas era quase como invent-las. O mundo superpopuloso era como uma fico cientfica s avessas. 
     Naquela tarde Jonas ia sentado no banco do passageiro em sua posio costumeira, com as pernas recolhidas sobre o assento, jogando alguma coisa nos culos de realidade virtual. Os tnis do filho estavam sujos do carapinho de futebol enlameado do colgio. Milena reparou nos  msculos aparentes da panturrilha e do joelho do garoto. J no eram as pernas de uma criana. Seriam as de um adulto? Jonas desligou o jogo e retirou os culos. A luminosidade da rua o forou a piscar os olhos repetidamente, e depois ele adotou um olhar vazio e se perdeu em seus pensamentos. Milena esqueceu o filho por uns minutos e voltou a ateno  pista e ao noticirio que o computador de bordo emitia em volume quase inaudvel. A comunidade internacional voltava a impor sanes  China por violao das diretrizes internacionais de controle de natalidade. O comentarista, um historiador que assinava uma coluna bastante popular no jornal, ressaltava a ironia da situao, lembrando como, poucas dcadas antes, o gigante asitico era condenado pelos contornos punitivos de sua poltica de conteno demogrfica. 
      Me.  Jonas interrompeu o silncio.  Vou me retirar no dia 2 de outubro. 
      To cedo?  Milena respondeu por impulso, se arrependendo em seguida. Sabia que o filho considerava a deciso h meses, e era verdade que ele vinha tangenciando o assunto fazia tempo. No era nenhuma surpresa. 
      No  cedo. Faltam quase dois meses. 
      Eu sei. S estou sendo chata como de sempre. 
      E vai ser uma caravana. O Felipe e a Riana vo comigo. 
     
      Que timo!  Milena se entusiasmou, se arrependendo outra vez. No conseguia mais conversar com Jonas sem sentir-se inadequada. Ou contrariava os prprios sentimentos, ou os dele.  Eu gosto muito da Riana. Ela  uma graa, e tem uma cabea to adulta... Vai ser bonito vocs irem juntos. 
     Jonas pareceu satisfeito e no falou mais. Milena sufocou um suspiro. No queria perd-lo. Ela e Zeca tinham decidido ter a criana depois de muitos anos dispensando filhos. Uma vez, no quarto ano de casamento, entrou no Posto de Controle de Natalidade para renovar o dispositivo intrauterino e quase solicitou uma ligadura. Faziam na hora e era gratuito como todo o resto. A maioria das mulheres optava por procedimentos definitivos. Homens nem tanto, preferiam plulas masculinas a vasectomias. Ela havia recuado na ltima hora. Podia querer um filho  no futuro. Que mal fazia? Um s. 
     Ontem, quando chegaram em casa, Jonas tinha se oferecido para esquentar a comida do jantar e picar vegetais para uma salada. No era comum ele assumir o almoo. Em geral ia treinar cestas de basquete no ptio dos fundos enquanto ela cozinhava. O garoto estava animado pela ideia da retirada. 
     Milena ficava um pouco perplexa diante da postura que a gerao do filho tinha diante da vida e da morte. Nascida na gerao do milnio, ela prpria entendia a vida como opcional. Mas Jonas e seus colegas j chegavam  adolescncia com uma concepo diferente. Abandonar a vida cada vez mais cedo era quase uma misso. Ainda na infncia do menino, tinha visto sinais disso. Retirar-se da vida estava no cerne da noo de identidade daquela garotada, mais do que as roupas, as bandas ou as preferncias sexuais  Foi a gerao de seu filho que cobriu de eufemismos as decises pessoais de vida e morte: eles se retiravam em caravanas. Esforavam-se para sair da vida com um evento planejado sob medida, depois de uma presena sobre a terra cuja brevidade seria compensada por uma personalizao impecvel. Uma vida exposta e aprovada nas redes sociais, cristalizada para sempre por uma sada de cena calculada para o momento exato. 
     Somente pequenos grupos conservadores e os tmidos remanescentes dos velhos monotesmos ainda se davam ao trabalho de gritar termos como "suicdio coletivo", agarrados a anacrnicas vises da vida humana como algo sagrado. Havia as chamadas seitas de fertilidade, que abrigavam adeptos da reproduo descontrolada em prdios abandonados e chcaras isoladas. Havia tambm os adeptos da morte suja, que buscavam nos rituais sanguinolentos um contraponto  banalizao assptica da morte. Sobre esses, Milena no gostava nem de pensar. Tinha visto vdeos na internet e ficado muito perturbada. 
     Para a gerao de Jonas, j fazia parte dos currculos escolares a noo de que buscar transcendncia na reproduo, viver ao mximo, viver at o fim, tornava insustentvel a perpetuao da raa humana. E quem tinha colocado isso l eram pessoas como Milena. Pessoas como o pai de Jonas, que tinha ido  farmcia comprar um kit de eutansia meia hora depois de ser diagnosticado com cncer pulmonar. Dentre vrias opes, Zeca escolheu um kit que induzia lenta e progressiva anestesia, at a perda da conscincia em uma morte indolor. A festa de sua partida contou com 40 amigos e familiares, que assistiram juntos, com risos e lgrimas, ao vdeo biogrfico que o Google editava automaticamente. Jonas tinha 8 anos quando viu o pai fechar os olhos para sempre. 
     O mundo tinha ento 4 bilhes de pessoas. As estimativas atuais eram de 2,6 bilhes. 
      Jonas.  Milena fez uma longa pausa. A avenida serpenteava morro abaixo em curvas abertas e ela queria chegar logo em casa.  At outubro, vamos tentar... 
      J pensei em tudo, me. A gente vai fazer um monte de coisa juntos at l. Mas a data eu decidi.  assim que eu quero. 
     Milena sentiu a mo do filho em seu brao. Era a primeira vez em muito tempo que ele tocava nela. Ele usava um anel de madeira com um enfeite oval de ao escovado. Era alguma coisa nova da Apple. Ela sentiu o brao inteiro e as costelas se arrepiando. Com o olhar  fixo na mo carinhosa do filho, no viu a caminhonete de luxo descontrolada cruzar o canteiro central. O volante puxou violentamente para o lado, ouviu seu carro sendo esmigalhado e sentiu a gravidade tentando arrancar sua cabea do pescoo. 
     Quando voltou a si dentro do casulo de ao e plstico, a primeira coisa que viu foi Jonas, ainda preso ao banco do passageiro pelo cinto de segurana. O sangue escorria da topo da cabea do garoto como chocolate derretido. Ele olhava para os lados como se assistisse a uma partida de tnis. J no estava mais ali de verdade. Ela ainda esperou alguma ltima palavra, mas no veio nada. A avenida continuou vazia e em silncio. 

Daniel Galera  escritor e vive em Porto Alegre. Seu mais recente livro  o romance Barba Ensopada de Sangue.
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8# LTIMA PGINA junho 2015

DESCULPA QUALQUER COISA E AT LOGO

2.000 kcal
Essa  a quantidade de energia que devemos ingerir por dia. Mas, se no cuidar, d para comer isso em uma nica refeio.
Infogrfico Karin Hueck e Inara Negro Foto Daniel Ozono

800 kcal  Iogurte grego com banana, granola e mel
300 kcal  Castanha-do-Par
550 kcal  Croque monsieur
250kcal  Suco de laranja
1.600 kcal  Costelinha de porco com molho barbecue
300 kcal   Caipirinha
540 kcal  Batida de coco
1.600 kcal  Poro de batata frita com cheddar
1.150 kcal  Duplo X-egg bacon
830 kcal  Milkshake de negresco

